Atrevi-me ir ao cinema assistir Kursk – A Última Missão (The Command, 2018). Esse filme francês-belga é sobre o acidente real que relata a história do submarino russo que naufragou, no dia 12 de agosto de 2000. Filme esse que foi repudiado por Vladimir Putin, uma vez que a culpa da Rússia fica bem evidenciada. E, quando digo que fui atrevida, refiro-me à falta de preparação psicológica que tenho pra lidar com livros e filmes tristes. Principalmente quando baseados em fatos reais. Entretanto, vamos lá que vou contar um pouco sobre essa experiência de ontem!

O longa metragem literalmente nos submerge as águas frias do mar de Barents. O submarino nuclear russo Kursk (assim como o Titanic), era considerado “inafundável”. E a partir do momento que essa máxima é destruída perante nossos olhos, iremos acompanhar a história de alguns dos guerrilheiros da marinha russa. Esses que sobreviveram à explosão inicial. Estavam embarcados para realizarem uma simulação de combate.

Como eu imaginava mesmo antes de sair de casa, essa história seria difícil de acompanhar. E mexeria com meu íntimo. Sou fraca toda vida pra lidar com esse tipo de drama. E obviamente, quando se romanceia uma história dessas, não tem coração que aguente sem chorar. Siimmm, eu me derreti todinha de tanto que me envolvi com a história de vida das personagens. Aquelas mulheres e filhos que esperavam a resposta sobre o resgate de seus entes queridos.

Algo que gostei muito no filme, foi a retratação (acredito que fictícia, não sei ao certo) inicial da vida dos marinheiros em terra firme. Mostrar suas famílias, suas festas, e principalmente sua união. Eles viviam como uma grande família. Amigos que se sacrificam por amigos. Senti um grande amor fraternal. E percebi que me deixar cativar por essa vivência das personagens jogaria contra mim até o final dessa história. Uma vez que já sabemos que seu fim é bem trágico.

Obs: Se atentem bem à música que os marinheiros cantam! Ela tem um valor bem especial… Algo que me marcou!!!

O que mais pesa, com toda certeza, é ficar imaginando o que aqueles homens sentiam durante a dura espera do seu resgate. É que existe aquela confiança de que a marinha russa fará de tudo para resgatar seus homens. Porém, submersos nas águas frias, e com o oxigênio se esgotando… Os marinheiros não poderiam imaginar toda a burocracia que estava sendo empecilho para que eles fossem finalmente trazidos para terra firme.

O chefe da marinha britânica, David Russell (Colin Firth) busca formas de convencer a marinha russa a permitir ajuda estrangeira. Conquanto, a Rússia está sem equipamentos e condições viáveis de empreender o resgate de seus homens. As nações da Grã-Bretanha, França e Noruega enfrentam essa tal burocracia perante o governo russo e nada podem fazer. Enquanto isso ocorre acima das águas profundas do mar de Barents… Lá embaixo acompanhamos toda agonia e desespero dos marinheiros para sobreviverem um pouco mais, à espera de um milagre.

O mote do filme retrata os poderosos russos afirmando que quando os marinheiros se alistaram, eles prometeram defender a Rússia com suas vidas (mas, ressalto… não em vão!). E dessa forma, por questões puramente burocratas, esse governo buscou resgatar aqueles homens com aparelhagem não suficiente para tal. A esperança se esvaia por entre os dedos, tanto de quem estava em casa à espera dos seus, quanto daqueles homens que além de molhados, morriam de frio e com o oxigênio cada vez mais escasso.

Mikhail Kalekov (Matthias Schoenaerts), é nosso protagonista nesse longa, uma vez que ele batalha até não poder mais para que prossigam vivos dentro daquele compartimento do submarino. Sua família é a que temos mais contato: sua esposa grávida, Tanya (Lea Seydoux) e seu filho Misha (Artemiy Spiridonov). E acompanha-los é mexer com qualquer estrutura emocional. Podemos sentir com eles a destruição de suas esperanças, para depois ela ser retomada, e despedaçada em seguinte… Vezes sucessivas.

Kursk, por ser um filme que retrata um desastre tão forte e tão triste, deixo aqui meu aviso para: se você não dá conta, não assista. Eu me senti muito mal durante a exibição. Tudo miseravelmente muito triste, e pelo viés do filme (eu não acompanho de fato a história da Rússia para saber o quão real foi o relato), eu achei tudo muito revoltante. Por causa da dita burocracia, homens estavam sofrendo e minguando no exercício do seu dever, porém, negligenciados por aqueles a quem eles juraram defender.

Embora eu tenha me sentido um pouco incomodada pelo filme ser todo na língua inglesa, pois seria interessante reviver essa tragédia em seu idioma natal, o russo, eu busquei me deixar levar pelos acontecimentos. E eles por si só deram conta de me deixar bastante envolvida com a história, com todo o trama e com toda a desolação causada por essa tragédia horrorosa. O sentimento crítico que fica ao final, nada mais é do que indignação pelo governo russo deixar seus homens de confiança sofrendo no fundo do mar, sem perspectiva de resgate. Pessoas com vidas acima do mar, tratados como seres insignificantes. E isso machuca!

Robert Rodat, quem escreveu anteriormente O Resgate do Soldado Ryan, foi quem trouxe a adaptação do livro A Time to Die: The Untold Story of the Kursk Tragedy (Robert Moore) para as telas. Como tudo nesse longa foi relativo ao tempo – desde a espera para lançar um míssil, passando pelo tempo que ainda teriam oxigênio para respirar dentro do submarino, chegando ao tempo de espera por permitir ou não auxílio de outras nações – eu senti que o filme poderia ter sido menos longo. Muita angústia para ficar remoendo durante 2 horas.

Concluindo, recomendo a experiência, se você acha que pode suportar melhor que eu e não se desmanchar na sala de cinema ao lado de alguém que nem conhece, vá assistir Kursk … Afinal, a produção é excelente e a gente se sente vivendo as desventuras desses marinheiros que tinham tudo a perder, menos a esperança.

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Estreia: 9 de janeiro de 2020
Duração: 1h 58m
Direção: Thomas Vinterberg
Elenco: Matthias Schoenaerts, Léa Seydoux, Colin Firth
Gênero: Drama/Thriller, Baseado em Fatos Reais, Adaptação
Produtora: EuropaCorp