‘Hebe – A Estrela do Brasil’ é um filme biográfico sobre aquela que veio se tornar a rainha da televisão brasileira. Hebe Camargo foi apresentadora, cantora, radialista, humorista e atriz. Na crítica de hoje, conheceremos um pouco mais desse ícone brasileiro, onde o filme se concentrou em sua vida na segunda metade dos anos 80.

Quando a atriz Andréa Beltrão foi ao programa de Hebe Camargo no SBT, em fevereiro do ano de 1990, ela jamais poderia imaginar a ligação que teria com aquela personalidade que a entrevistava. Andréa, até então, estava em início de carreira, enquanto Hebe Camargo era consolidada e, chamada de nada menos que a rainha da televisão brasileira.

Já em 2019, a atriz, em nova entrevista, desta vez para o apresentador Pedro Bial, diz se considerar a melhor amiga de Hebe, mesmo que esta complete agora em setembro 7 anos de falecimento. Para Andréa, mesmo sabendo que Hebe agora vive em outra dimensão, elas são melhores amigas.
A atriz, na preparação de seu papel, viveu e respirou Hebe Camargo por um longo tempo, chegando até mesmo a imitar pequenos gestos da rainha, segundo os próprios parentes de Hebe.

HEBE - FILME

Ao usar os famosos brincos de brilhantes, pesados, Andréa, depois de tirar os brincos, pressionava gelo nas orelhas. Segundo o sobrinho de Hebe, sem saber, Andréa imitava uma rotina da apresentadora. E essa relação de proximidade, que envolve conhecimento, vida e morte, foi muito visível em sua atuação em Hebe: A Estrela do Brasil.

O filme, que teria direção de Cacá Diegues, e que foi substituído pelo diretor Maurício Farias, apesar de deixar clara toda a importância de Hebe para a TV brasileira e dar pistas contundentes de sua biografia, aborda um recorte de tempo mínimo se comparado à carreira de Hebe. A trama basicamente apresenta a segunda metade da década de 1980, começando mais especificamente em 1985, quando Hebe, ainda apresentadora da Bandeirantes, sofre censura por parte do condenado regime militar.

Hebe sempre se considerou uma defensora das minorias, especialmente de pobres e homossexuais. No filme, Hebe se sensibiliza pelo tema da AIDS, ainda incipiente naqueles anos, depois que seu cabeleireiro há mais de década, e amigo, contrai a doença e acaba parando no corredor de um hospital público. Hebe, com um buquê de rosas em punho, desbrava toda a pobreza para ver o amigo.

Depois de sua morte, Hebe faz uma homenagem a ele em seu programa, pedindo uma oração, aproveitando a presença de um padre no programa, que não se manifestou. Isso sinaliza a resistência de religiosos para lidar com o tema da AIDS. Talvez por essa abordagem o filme seja tão esperado pela comunidade LGBT+.

A cena inicial do filme mostra a ânsia de Hebe por desafiar e encarar toda censura que pudesse existir contra ela. O lendário produtor de TV brasileira, Walter Clarke, é sempre o responsável por dar satisfações ao regime e fazer promessas que Hebe não cumpriria jamais.

Andrea Beltrão encarnou a alma da apresentadora, nos mínimos detalhes, chegando até mesmo a imitar os tiques e manias da apresentadora, tais como a piscada de olhos descontrolada e a correção da postura antes de emitir uma opinião mais forte.

Também louvável foi a atuação de Marco Ricca, interpretando o segundo e último marido de Hebe, o empresário Lélio Ravagnani. O filho único de Hebe, Marcello Capuano, em depoimento de 2018 para a biografia de Hebe, escrita por Artur Xexéo, relatou as crises de violência do padrasto, que bebia em excesso e tinha crises de ciúme violentas a respeito da relação de Hebe com seus convidados. No filme, duas dessas cenas ocorrem por ciúmes do cantor Roberto Carlos e do animador Chacrinha.

HEBE - A ESTRELA DO BRASIL

Esta talvez seja uma conclusão do filme não muito próxima da realidade. Na película, vemos Hebe dando ultimatos ao marido. Na última cena, pra se defender, Hebe quebra uma garrafa de bebida e ameaça Lélio, afirmando que dessa vez, “Nunca mais.”

O que não se configura fato na realidade, pois Hebe e Lélio se separaram apenas no ano 2000, quando Lélio faleceu. No filme, temos a impressão de um rompimento que jamais aconteceu, por exceção da separação do casal antes mesmo do período tratado na obra.

É óbvia a intenção de tratar da censura a Hebe no filme, em detrimento de sua carreira e demais fatos da vida. Perseguida pelo regime militar e depois por políticos, Hebe travaria lutas contra deputados em Brasília por constantemente sugerir que havia corrupção e corpo mole por parte de nossa classe política.

Tal recorte não tira o brilhantismo do longa. Ele se propõe a fazer justamente o que fez, talvez para buscar qualquer paralelo político com o momento atual, tendo em vista a resistência e oposição da classe artística às ideias do governo em vigor.

Não é possível deixar de notar que o censor do início do filme possui trejeitos do presidente da república e até mesmo o penteado idêntico. Mas sabemos que quem produz uma arte quer deixar um recado com sua obra.

Independente do recorte de tempo exposto ali, uma das funções do filme deveria ser despertar o interesse do grande público para figuras tão importantes para a televisão brasileira, especialmente em tempos de programas vazios de conteúdo e personalidade.

Hebe Camargo, Nair Belo e Lolita Rodrigues – amigas inseparáveis

Hebe Camargo, seja através de vídeos, músicas, livros ou da exuberante atuação de Andréa Beltrão, não deve ser esquecida pelos brasileiros.

CURIOSIDADES SOBRE A CARREIRA DE HEBE CAMARGO:

  1. O 1º nome artístico escolhido pela apresentadora foi Magali Porto. Já pensou você assistindo ao “Programa Magali” pelo SBT?
  2. Hebe fez parte do grupo que foi ao porto de Santos receber os equipamentos que dariam origem à primeira emissora de TV brasileira: a Tupi.
  3. Sua carreira começou quando ela teve que substituir Ary Barroso em seu programa.
  4. Em 1955, apresentou o primeiro programa feminino da TV brasileira, O Mundo é das Mulheres, com direção de Walter Forster.
  5. Em 1967, participou de um dos famosos festivais da TV Record cantando a música “Vai Amanhã”. Foi vaiada o tempo inteiro. Ela cantou até o final. Hebe nunca mais voltou a se apresentar em festivais.
  6. Em julho de 1985 (programa na TV Bandeirantes), jogou o microfone no chão para reclamar da emissora. Pediu um novo cenário, mais pessoas na produção e uma orquestra para acompanhar o programa.
  7. O selinho (marca registrada) surgiu de uma brincadeira com a cantora Rita Lee, em 1997.
  8. Paulo Maluf (amigo de longa data) sugeriu que ela fosse prefeita de São Paulo. Hebe considerou a ideia “uma gracinha”, mas não levaria adiante.
  9. Católica devota, conversa em voz alta com todas as imagens de santos que tinha. Chegava a levar imagens de Nossa Senhora Aparecida e de Nossa Senhora de Fátima em suas viagens.
  10. Sua flor predileta era a rosa vermelha. Fazia questão de ganhar uma nos shows do rei Roberto Carlos.

Crítica escrita pelo nosso leitor @daykersonav  – marido da nossa Carol Nery -, que foi à pré-estreia para convidados ver a cinebiografia ‘Hebe – A Estrela do Brasil’ na terça-feira, através de nosso blog. Ele nos enviou essa crítica (muito bem feita) sobre o que ele achou dessa produção!

Muito obrigada Daykerson, por acompanhar nosso trabalho, e também por compartilhar conosco sua critica.

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Hebe é um filme biográfico da Rainha da Televisão Brasileira, Hebe Camargo. O filme perpassa sua história de vida durante a segunda metade dos anos 80.

 

Data de lançamento: 15 de agosto de 2019 (mundial)
Duração: 2h 2m
Direção: Maurício Farias
Roteiro: Carolina Kotscho
Gênero: Biografia
Companhia(s) produtora(s): Hebe Forever; Labrador Filmes; 20th Century Fox; Globo Filmes; Warner Bros. Pictures.