Desde quando peguei o livro ” Garota em Pedaços ” e comecei a analisá-lo, lendo as informações da capa, sinopse e orelhas, eu soube que seria uma leitura delicada e bastante profunda.  A meu ver o tema é denso e sério. A personagem principal sofre de um distúrbio que a leva a automutilação. Desde o inicio fiquei interessada e em minha opinião assuntos assim devem ser discutidos constantemente, para que as pessoas possam compreendê-los um pouco mais. A propósito a abordagem se encaixou perfeitamente neste Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicídio.

“Eu me corto porque não consigo lidar com as coisas. É simples assim.”

Resenha Garota em pedaços

Na trama conhecemos a protagonista no momento em que ela está internada em uma clínica para garotas que assim como ela machucam o próprio corpo. Acompanhamos seu período de internação, depois sua saída e vida fora do hospital. Trata se da difícil jornada de uma jovem tentando superar seus enormes problemas. Aos 17 anos Charlie tem uma história conturbada, que vamos conhecendo através de suas lembranças e de sua nova rotina. Encontramos coisas como a perda do pai, perda da melhor amiga, péssimo relacionamento com a mãe, abandono, vidas nas ruas, violência e muito mais.

Este amontoado de situações conflitantes resulta em um abalo emocional muito grave e todas essas frustrações fazem com que Charlie se corte em busca de alívio. Ela se corta em momentos de descontrole, quando sua dor, seu medo e sua solidão, ficam maiores do que sua vontade de abandonar esse comportamento. E uma compulsão, algo que a deixa envergonhada e que destrói ainda mais sua autoestima.  Decidida a mudar, mas desprotegida e insegura, ela encontra no desenho uma maneira de se acalmar e se expressar. Será a arte sua salvação?

É algo “muito doido” ler e se aproximar tanto de alguém que carrega sentimentos tão perturbadores. A fragilidade emocional da personagem é angustiante. Penso que qualquer leitor com um mínimo de empatia será tocado pelo texto. Ela se sente sozinha, detesta suas cicatrizes e se vê como alguém desprezível e sem valor. Toda esta fragilidade faz com que Charlie seja uma pessoa vulnerável e a deixa exposta a ser usada, iludida, se decepcionar, sofrer, entrar em crise e ter momentos de descontrole. A história dela fez com que meus problemas ficassem pequenininhos.

“…Ainda não estou pronta para olhar para mim mesma e tocar nos danos recentes.
Tocar em mim vai tornar tudo ainda mais real. E minhas cicatrizes ainda doem…”

Garota em Pedaços é narrada em primeira pessoa pela protagonista e isso nos proporciona um acesso muito íntimo aos seus pensamentos e sentimentos. Todos os personagens são envolventes e em meio a tanto transtorno Charlie se relaciona com amigos e vive um romance. Temas pesados como drogas, álcool, sexo desregrado e abuso são abordados na obra e me admirou a sensibilidade com que a autora tratou tudo isso. Fiquei surpresa ao descobrir que Kathleen também viveu o problema da automutilação. A nota da autora no finalzinho do livro me deixou arrepiada! 

Apesar de já ter visto, por alto, algo parecido na mídia, este livro foi o mais próximo que cheguei desta realidade. Graças à leitura, tive curiosidade de pesquisar um pouco mais e hoje sei que a automutilação e um distúrbio grave, que requer tratamento. Resumidamente são pessoas que usam a dor física para aliviar sofrimentos psicológicos e isso se transforma em um vício. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, não e uma atitude de quem quer chamar atenção e se você que está lendo esta resenha passa por isso, não tenha vergonha, busque ajuda, busque apoio.

“Estou tão partida. Não sei onde todas as peças de mim estão, nem como montá-las…”

Embora a intenção de quem se mutile não seja por fim a própria vida, a prática destrutiva revela um sofrimento silencioso, que mata aos poucos a alegria de viver.  Em alguns casos essa atitude pode sim levar uma pessoa a por fim a própria existência ainda que sem querer. Portanto, se você conhece alguém que esteja nesta situação, enxergue a atitude como um pedido de socorro, não feche seus olhos nem ajude a acobertar. E se em algum momento você tiver o impulso de se machucar, não vá em frente. Quem passa ou já passou por isso, nos alerta para o quanto é difícil parar após ter feito uma primeira vez.

Como se não bastasse toda dificuldade vivida, pessoas assim ainda precisam lidar com a discriminação. Sei que cada um age de acordo com o que acha certo, mas gostaria de deixar aqui o meu apelo em favor do respeito e contra o preconceito e o julgamento. Tente se lembrar de que há muita dor e sofrimento envolvido. Eu acredito no amor (claro, ligado aos tratamentos necessários) e gosto de pensar que o afeto pode ser grande aliado na cura de corações e mentes adoecidas. Garota em Pedaços me chocou, me angustiou, e me fez refletir. Se algo assim lhe interessa, aposte na leitura!

E então, gostou da resenha? Tentei ao máximo dar a devida importância a esta questão tão delicada.

Essa matéria foi escrita por  Nathalia enquanto ainda era colunista do Coisas de Mineira 

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Ficha Tecnica
Resenha Garota em pedaços

Titulo:  Garota em Pedaços 
Autor: Kathleen Glasgow 
Ano: 2017
Páginas: 384
Editora: Outro Planeta
Gênero: Ficção, Jovem adulto, drama 
Onde comprar: Amazon
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