“Frankenstein” é um clássico que todo mundo precisa incluir na sua lista de leituras. Seja agora ou não, gostando da trama ou não, ela já se transformou em uma obra que ultrapassa o significado objetivo de sua história. Em setembro do ano passado tive o prazer de realizar essa releitura na nossa LC Medo Clássico, dessa vez na linda e completa edição da DarksideBooks.

Robert Walton e sua tripulação estão realizando uma viagem marítima em busca de novas descobertas quando avistam uma criatura imensa, desproporcional, fugindo em terra em uma carroça puxada por cães. Em seguida encontram uma segunda carroça, com um tripulante quase morto. Este se apresenta como Victor Frankenstein, que após fazer amizade com o Walton, decide contar sua história.

“Nada é tão doloroso para a mente humana quanto uma grande e repentina mudança”.

Victor Frankenstein sempre foi um jovem inteligente e curioso, ele sempre quis saber mais. Inicialmente, ao contar sua vida, fala sobre sua família, seus irmãos e o despertar de seu amor por Elizabeth. Mas, ávido pelo conhecimento, parte em busca de sua formação acadêmica, deixando todos o esperando em sua cidade natal.

A grande questão era que Victor queria ir até onde ninguém nunca foi ou ousou ir. Achava um enorme desperdício que cérebros brilhantes em vida virassem alimentos de vermes após a morte e queria entender os mistérios pós-morte para reverter esse ultraje.

E foi assim que o doutor Frankenstein fez sozinho seu projeto de compreensão e reversão da morte. Juntou partes de corpos com as melhores características que encontrou (tronco alto e largo, pernas e braços fortes) e formou uma criatura para qual conseguiu dar novamente a luz da vida. Mas o resultado não foi o que ele esperava… Achou sua criação abominável e fugiu, a abandonando antes mesmo que ela acordasse.

MARY SHELLEY

Tempos se passaram com Victor a cada dia conseguindo se preocupar menos com o que ocorreu e seguindo sua vida. Porém, graves situações começam cercar a ele e sua família, obrigando-o a assumir a responsabilidade de seus atos e ir de encontro a sua criatura.

Este livro é um marco por diversos motivos, sendo o principal deles ter sido escrito por uma autora tão jovem e em uma época tão pouco desenvolvida científicamente (1818). Mary Shelley escreveu “Frankenstein” em um desafio proposto em um encontro na casa de Lord Byron, onde além deles estavam presentes o marido de Shelley, Peter Shelley, e John Polidori. Inclusive, neste dia Polidori escreveu “The Vampire”, a primeira história de vampiros, e que anos mais tarde inspiraria Bram Stoker em Drácula.

“Eu sei que pela simpatia de um ser vivo, eu faria as pazes com todos. Tenho em mim um amor de um tipo que você mal pode imaginar e uma raiva de um tipo que você não acreditaria. Se eu não puder satisfazer um, vou satisfazer o outro. ”

FRANKENSTEIN - MARY SHELLEY

Apesar de não trazer detalhes científicos e biológicos de como se deu a experiência de Victor, a história trabalha perfeitamente os conceitos de existencialismo, responsabilidade científica e psicologia. E por que não dizer que a história é capaz de trabalhar em nós o nosso senso de justiça e tolerância?! Somos confrontados pela irresponsabilidade de Victor causando o triste destino da criatura. Ao mesmo tempo, pensamos nos benefícios a longo prazo da ambição e busca do saber, em contrapartida à natureza assassina das atitudes da criatura.

Muitos leitores dizem não ter gostado da leitura e eu acredito que vários possam ser os motivos para que isso aconteça. Primeiramente, a linguagem utilizada é bem formal e antiga, referente à época em que foi escrito o livro. Esse fato, somado à narração detalhada de Victor sobre os passos de sua vida pode conferir certa morosidade ao começo da história.

Outro ponto considerável é a ampla utilização de Frankenstein na cultura pop, principalmente no cinema, onde o enredo foi livremente adaptado. É bem comum que novos leitores esperem um monstro verde, com parafusos no pescoço, chamado Frankenstein… O choque da diferença pode frustrar muita gente! Ainda mais ao encontrar uma história de tom tão reflexivo.

FRANKENSTEIN - MARY SHELLEY

E por último (e olha que aqui coloco bastante opinião pessoal), sei que pode ser difícil ver Victor narrar tudo como uma pobre sofrida vítima, quando na verdade é o grande causador de toda a situação. Até que não está tão errado achar que Frankenstein é o nome do grande monstro da história, pois ele (Victor) realmente é. Seu egoísmo, ambição, vaidade e principalmente irresponsabilidade geraram uma série de tragédias que ficaram ainda mais evidentes após o triste relato de vida da criatura.

Enfim, uma história de nuances, de perspectivas e que te faz pensar. Uma obra transgressora, que rompe gerações e ainda hoje divide opiniões entre seus leitores. Recomendo, como complemento, que assistam o filme da vida da autora (“Mary Shelley”, disponível na Netflix), pois será enriquecedor para leitura.

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Frankenstein – Ou o Prometeu Moderno
Autora: Mary Shelley
Ano: 2017
Páginas: 304
Editora: DarksideBooks
Gênero: Horror, Terror, Ficção Científica
Nota: 4/5
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