“Framing Britney Spears”, o polêmico e aguardado documentário feito pelo New York Times enfim chegou ao Brasil. A Globoplay comprou seus direitos e o incluiu ontem em formato de filme no seu catálogo. Mas o que o documentário tem de especial? Ele faz uma abordagem inicial sobre o decorrer da carreira de Britney, desde seu início no Clube do Mickey (Disney), até os conturbados dias atuais que ela está vivendo. E principalmente, ele aborda e detalha as motivações do movimento “Free Britney”, criado pelos seus fãs, e que vem ganhando força no cenário americano. ATENÇÃO, esse não é apenas mais um documentário sobre cultura pop, ele traz uma excelente reflexão sobre saúde mental e pressão social.

E pra entender o movimento, é realmente necessário relembrar passo a passo da carreira da cantora. E é isso que “Framing Britney Spears” faz. Começamos conhecendo a criancinha prodígio que agarra com muita luta todas as oportunidades que surgem até a adolescente recém contratada de uma gravadora para divulgar o single “Baby One More Time” (que ainda hoje é icônico e referência pra muitos clipes e cantoras). Acompanhamos suas apresentações improvisadas em shoppings, até que o boom aconteceu!

Britney Spears

E é aí que você é convocado a participar do turbilhão de emoções, assédios, invasões de privacidade, medos, machismos e exposições da vida de Britney. Relacionamentos amplamente expostos, imagem sendo absurdamente explorada, todo mundo queria tirar uma fatia de seu sucesso. Ainda muito jovem, no final dos anos 90, tinha que se sujeitar a responder comentários de que seus seios estavam se destacando, confirmar sua virgindade, ver programas inteiros de TV discutindo que suas roupas curtas não correspondiam a sua imagem “inocente”. Em uma das entrevistas, inclusive, é lida para ela a mensagem de uma mulher que diz que se pudesse lhe dava um tiro, por causa da influência negativa que exercia sobre seus filhos. Britney até tenta responder, mas cai no choro.

O importante do documentário é que ele é feito por uma mídia de confiança e de respeito, o The New York Times juntamente com o canal FX, além de incluir entrevistas importantes de pessoas que participaram ativamente da carreira da cantora. E não pense que eles passaram pano pra alguns ou ocultaram fatos. Nem mesmo o queridinho dos EUA, Justin Timberlake, deixou de receber sua parcela (GRANDE) de culpa no declínio emocional e mental da garota. O documentário mostra suas várias entrevistas pós-término, dando a entender que foi traído e fazendo piadas de que havia sim transado com Britney (que até então alegava virgindade na imprensa). Como cereja do bolo, ele eterniza seu vitimismo e “culpa” da cantora com o clipe “Cry me a River” que tem a participação de uma sósia dela. Vou deixar traduzida aqui abaixo:

Bom, a questão é que Britney Spears teve vários homens de caráter duvidoso em sua vida, acumulou decepções e chegou em um ponto de ter a infelicidade das desgraças de sua vida valerem muito dinheiro. Se casou, passou a ser julgada como esposa de respeito, engravidou, passou a ser julgada como mãe ruim, se separou e foi taxada de surtada, perdeu a guarda integral dos filhos e passou a ser chamada de louca. Nada de novo sob o sol, uma mulher em desespero ter suas fraquezas e inseguranças reduzidas a “histeria e surto”. Os paparazzi não a deixavam em paz, sua imagem valia muito. Em alguns momentos é possível ver ela relatar estar com medo de tanta gente a perseguindo e ficando tão próxima do seu carro.

Quando eu falo o que sinto, eles ouvem, mas não prestam atenção. Eles ouvem o que querem, não escutam o que eu digo. Então… é ruim. Estou triste.

Pictured: Britney Spears. CR: FX

Um dos paparazzi que a perseguiam participa de “Framing Britney Spears” e dá seu relato. Em sua opinião, o trabalho dos paparazzi sempre esteve em equilíbrio com as necessidades de Britney, e que a cantora gostava de certa exposição. Este tal profissional é o responsável pela foto mais cara tirada da cantora, uma em que ela está careca e parte pra cima dele com um guarda-chuva. Ele recebeu 01 milhão de dólares pelo click e finaliza a entrevista dizendo que “tirou a sorte grande”. Detalhe, Britney estava super nervosa e frustrada voltando da casa do ex-marido, que havia proibido suas visitas aos filhos, e este nem a recebeu. O próprio ato de desespero de raspar os cabelos eu consigo ver como um pedido de ajuda, algo estava se partindo e ela não importava mais.

Enfim, após vários momentos conturbados, o pai ausente de Britney, Jamie Spears ressurge com um pedido de tutela para cuidar de TODA e QUALQUER decisão financeira e de vida da cantora. Este é autorizado, supostamente através de negociações de visitas a seus filhos, e a cantora passa algumas temporadas em clínicas de reabilitação antes de ressurgir em sua carreira, trabalhando e rendendo lucros tanto ou mais que antes. Ela participou de séries de TV, foi jurada do X-Factor e lançou uma residência (shows em sequência durante um tempo longo) em Las Vegas. Estava faturando cerca de $1 milhão por semana.

Se eu não tivesse as restrições que tenho agora, com advogados, médicos e pessoas me analisando todo dia e tal, se não tivesse isso, eu me sentiria muito livre, como eu mesma!

Mas os fãs da princesinha do Pop começaram a notar sinais de que essa tutoria só não era benéfica pra ela. Que visava seus lucros e fama, e que ela estava presa em uma situação da qual não conseguia sair. Por estar interditada, não tinha (e não tem) autonomia pra decidir nada em sua vida. E assim surgiu o “Free Britney”, um movimento que busca a libertação da cantora deste controle exercido por seu pai, para que volte a tomar conta de suas ações. O movimento tem ganhado força entre fãs e famosos, inclusive já tendo recebido um discreto aval de Britney e desdém e deboche de seu pai. A cantora tem ganhado força pra se rebelar e desde o ano passado se recusa a trabalhar enquanto essa situação não for resolvida.

A importância de um documentário assim está além de contar a história de vida de uma cantora de sucesso. “Framing Britney Spears” vem pra humanizar e iniciar uma reflexão acerca dos fatos da vida de alguém que é ridicularizada e taxada de louca há anos. Nos faz questionar se evoluímos daquele tempo pra cá ou ainda repetimos o mesmo padrão de não comprometimento com a saúde mental do outro, se continuamos fazendo piadinhas, questionando roupa, cabelo, caráter, aceitamos que este outro seja humilhado e assediado em entrevistas e trabalhos “porque merece”.

Contrariando todas as estatísticas, Britney Spears permanece viva e lutando. Estarei aqui na torcida por ela e digo com toda certeza que muito provavelmente eu também surtaria! No entanto, não vamos nos esquecer das próximas Britneys, aquelas que estão por vir. Estaremos preparados ou usaremos a máxima  presente no documentário: “Nada como colocar em desgraça uma mulher que se destaca”.

It’s Britney, bitch!