Fragosas Brenhas do Mataréu, do escritor Ricardo de Azevedo, foi vencedor do Prêmio Jabuti de 2014 na categoria Infanto-Juvenil, tendo sido publicado pela Editora Ática.

Um romance de formação, que acompanha parte da juventude de um português de cerca de 15 anos, no século XVI, que tem a vida transformada ao ver a mãe ser acusada pela inquisição por prática de bruxaria. Por serem pobres, o agora órfão fica à disposição do rei, que o envia para as terras brasileiras.

Depois de muitas tribulações a bordo da nau Nova Conceição, ele naufraga e vem parar na costa brasileira, terra amaldiçoada, onde o diabo reina em seus afazeres – é uma visão recorrente de muitos portugueses, tementes à Deus, e que viam a travessia ao novo continente como uma condenação. Para sua sorte, e por ter aprendido muito com sua mãe sobre plantas, acaba se embrenhando na mata, em busca de abrigo e comida.

E assim vamos acompanhando o jovem, que passa por todas as agruras da adolescência, pela descoberta da sexualidade, e tem de virar adulto para enfrentar tantas adversidades em terras brasis.

“– Gosto de vosmecê desdezinho o brilhabrilhoso dia quando no arraial pela primeira vez nossos olhos se casaram! – E disse mais: – Se vosmecê encontrar um dia a morte vai sair de sua boca um beija-flor escapar feito frecha. Depois um pé de vento vai soprasoprar e girar e gemer e ventar ventando com tamanha força que, mesmo longelazinho, logo vou eu saber.”

FRAGOSA BRENHAS DE MATARÉU - RICARDO AZEVEDO

Já na apresentação de Fragosas Brenhas do Mataréu, o autor relata seu interesse pelo período colonial brasileiro, e de sua extensa pesquisa sobre os aspectos históricos e linguísticos, e o deslumbramento e medo do olhar de alguém que aportou no Brasil nesse período. Por conta disso, a linguagem é poética, e pode levar um pouco de tempo para o leitor se adaptar, uma vez que o autor procurou se assemelhar – mas não reproduzir, a linguagem e as “formas de falar recorrentes naquele tempo.

“Contou mais tarde o padre Simão, cheio de medos e preocupações, que, na capela, durante a reunião dos principais do arraial, garantiu a senhora dona viúva que uma situação tão malazarada e jamais vista só podia ser obra do manfarrico, do manes, do asmodeu, do satanás, do sujo que não sofre quando vê alguém sofrer.”

O jovem português se mostra um ótimo contador de estórias, e por conta disso temos estórias dentro da estória. Além dele, a jovem Jurecê traz muitas fábulas de sua tribo, que fazem uma contraposição com as narrativas cristãs apresentados pelo rapaz.

“A tudo assistiram, por detrás da moita a surucucu e o sapo.
-Pois não disse eu? – exclamou a cobra – Não é a peçonha! O que aos homens maltrata, pica, fere, envenena e mata é o medo!”

Outra passagem de Fragosas Brenhas do Mataréu que desperta interesse é quando o narrador e Mané Mulato são feitos prisioneiros por índios selvagens, junto com o judeu Diogo Caldeirão. Acontece que os índios são antropófagos, e a índia Ibirité tenta explicar por que os índios mantém sua cultura – o que suscita a discussão sobre diferenças étnicas e o choque cultural entre índios e europeus.

FRAGOSA BRENHAS DE MATARÉU

Mas é nas descobertas do jovem acerca daquele pedaço de mundo novo, nas relações com personagens – índios, mamelucos, negros, mestiços, judeus cristãos-novos, as relações de poder numa terra com um rei distante, que a estória se concentra e dirige nosso olhar para a formação do nosso país. Em como as vilas se formavam, como bandeirantes se embrenhavam pelo mataréu em busca do ouro, nos animais que acabaram com algumas dessas vidas – e até nas brincadeiras dos bugios com esse novo animal, que viria a se tornar seu principal predador. Mas ainda com um olhar penitente e cheio de vida, na ingenuidade e na crença de que é possível fazer melhor – nosso narrador vai aprendendo e ampliando seu mundo.

“Impressionou-me deveras perceber o poder que simples narrativa podia ter. De um lado, fazer meu coração sentir-se de alguma forma vingado. Ao mesmo tempo, fazer pensar e meditar toda a gente do povoado sobre as fraudes e torpezas que no mundo podia haver.”

Acima de tudo, Fragosas Brenhas de Mataréu mostra os primeiros anos de formação do Brasil, trazendo a discussão da colonização, da miscigenação dos povos e, consequentemente, de culturas, crenças, no que se torna o amadurecimento do narrador, mas que pode ser facilmente transposto para as terras de Santa Cruz!

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Título:  Fragosas Brenhas de Mataréu
Autor:  Ricardo Azevedo
Ano: 2013
Páginas: 256
Editora:  Ática
Gênero:  Infantojuvenil
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