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EU, ROBÔ – ISAAC ASIMOV | RESENHA

07 fevereiro, 2020 por

Eu, Robô - Isaac Asimov

Eu, Robô é um dos grandes clássicos da ficção científica e reúne contos futuristas envolvendo humanos e, principalmente, robôs. Lançado originalmente em 1950 e escrito pelo célebre autor Isaac Asimov, o livro chegou ao Brasil pela Editora Aleph em 2014. É também o primeiro livro da Série Robôs, de Asimov, que mais tarde integrou a série dentro da célebre série Fundação. O livro, inclusive, teve seu título utilizado no filme Eu, Robô, com Will Smith.

O que muitos não imaginam, porém, é que o filme tem quase nenhuma semelhança com o livro, limitando-se às 3 Leis da Robótica e a uma personagem descaracterizada. Ainda assim, o filme segue bebendo na fonte de Asimov: mesmo tendo sido inicialmente baseado em obras de Agatha Christie, desde o princípio era tido como uma obra Asimoviana. Afinal, o clima de mistérios, detetives e robôs é marca muito característica do autor.

“Vocês são provisórios. Eu, por outro lado, sou um produto acabado. Absorvo energia elétrica e forma direta e a utilizo com uma eficiência de quase 100%. Sou composto e um metal resistente, meu estado de consciência é ininterrupto e posso suportar as condições extremas do ambiente com facilidade. Esses são os fatos que, com a proposição obvia de que nenhum ser pode criar outro ser superior a si mesmo, põe por terra a sua tola hipótese.”

Assim, justamente por isso Eu, Robô é um livro que diverte e nos deixa absorvidos em sua história. Confesso que, inicialmente, quando vi que se tratava de um livro de contos, fiquei com um pouquinho de preguiça. Alguns livros de contos tendem a ser desarmônicos e desconectados e isso é algo que sempre me deixou muito frustrada. Asimov, porém, nos entrega uma narrativa muito fluida e praticamente sem quebra.

Decerto, sua habilidade é tamanha que a ambientação no livro é muito fácil, mesmo ocorrendo em um tempo muito no futuro (para Asimov, que o escreveu em 1950). Os contos se passam em 2035, que para nós já está ali na esquina, e discorrem sobre a trajetória e a evolução dos robôs através do tempo. Composto por 10 contos muito bem amarrados um no outro, o livro trata muito mais da perspectiva humana do que fala de robôs em si. Para quem gosta de analisar comportamentos e refletir sobre a humanidade, é um prato cheio!

Através de uma entrevista jornalística, a narrativa dos contos é construída sobre as memórias de Susan Calvin, uma robopsicóloga extremamente bem sucedida e, sem dúvidas, a melhor em sua área. Assim, a Dra. Calvin nos transporta até o começo da utilização de robôs no mundo humano, quando nenhum deles falava e era amplamente utilizados em fábricas e até mesmo como babás.

Curiosamente, um ponto crucial da história é o de que, no princípio, os robôs sofreram grande preconceito na sociedade. Eram tidos como máquinas diabólicas e tratados de forma extremamente grosseira e desrespeitosa. Os humanos chegam a proibir a utilização de robôs no planeta e tudo isso mostra apenas o gigantesco medo das pessoas frente às Inteligências Artificias; se de um levante robótico ou de uma substituição em massa, não chega a ficar claro.

“Houve um tempo em que o homem enfrentou o universo sozinho e sem amigos. Agora ele tem criaturas para ajudá-lo; criaturas mais fortes que ele próprio, mais fiéis, mais úteis e totalmente devotadas a ele. A humanidade não está mais sozinha. […] Os robôs são uma espécie melhor e mais perfeita que a nossa.”

Eu, Robô - Isaac Asimov

Asimov, porém, nos apresenta as Três Leis da Robótica, sob as quais todo e qualquer robô é desenvolvido. Seu objetivo era de possibilitar que humanos e robôs inteligentes convivessem pacificamente, buscando tanto tranquilizar os humanos quanto manter as máquinas sob um certo controle absoluto. Essas leis são implantadas nos cérebros positrônicos dos robôs e regulam todo e qualquer comportamento. São elas:

1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

Posteriormente ao livro, Asimov acrescentou uma quarta leia, intitulada de Lei Zero, tendo como definição a proteção da humanidade a qualquer custo. O próprio autor, aliás, chegou a afirmar que as múltiplas interpretações dessas leis lhe traziam uma grande amplitude criativa para desenvolver histórias. E é exatamente isso que podemos encontrar em Eu, Robô: uma gama vasta de interpretações dessas leis. É importante citar, também, que com a progressão tecnológica que presenciamos, as leis de Asimov estão muito próximas virarem uma legislação de fato.

Certamente, a robótica e psicologia são as partes mais incríveis do livro. Mas também é possível se admirar e aproveitar o fato de que, nesse universo, os humanos foram muito, muito longe na exploração espacial. Desde minas a grandes estações de energia, a humanidade claramente foi bem além dos limites da atmosfera. E, mais ainda, no livro conseguimos acompanhar a exploração de saltos quânticos no espaço!

“– Olhem para vocês – disse ele, por fim. – Não digo isso com desdém, mas olhem para vocês! A matéria de que são feitos é macia e flácida, sem resistência nem força, e depende de uma oxidação ineficiente de matéria orgânica para obter energia… como aquilo. – Ele apontou o dedo para o que restava do sanduíche de Donovan com ar de desaprovação.”

Inegavelmente, o autor constrói não apenas em Eu, Robô, mas em toda a sua obra, um universo célebre e muito bem desenvolvido. Sua genialidade para escrever histórias (e deixar o leitor com a cabeça quente de tentar resolver um problema) é astronômica. O livro me fez dar não apenas risadas com situações cômicas, mas também me comoveu, me deixou agoniada e ansiosa para saber a raiz do problema, para entender o que estava acontecendo e encontrar soluções.

Contudo, por mais incrível que Asimov seja em sua escrita e suas criações, acredito que toda a parte dos robôs poderia ter sido mais explorada. Sua constituição, seu desenvolvimento. Mais ficção científica e um pouco menos de comportamento humano sendo repetido de formas estranhas por robôs. Talvez até mesmo mais interações entre espécies. Poderia, com certeza, afirmar que esse é o único ponto que eu fiquei levemente (beeem levemente) insatisfeita. Queria muito mais!

Acima de tudo, Eu, Robô é um livro divertido, com um ritmo de fácil leitura e que pode ficar muito frenético, como ficou comigo. Depois que comecei, foi difícil de largar. Há momentos em que você fica um pouco cansado? Claro, como é passível de acontecer em qualquer livro. Mas são momentos raros e que podem até mesmo contribuir para uma leitura mais fluida. Não é difícil de se ler, não é um livro denso, mas é uma excelente leitura e um tempo muito bem aproveitado.

“Se o conhecimento fosse perigoso, a solução seria a ignorância. Sempre me pareceu que a solução teria que ser a sabedoria. Não se deveria deixar de olhar para o perigo; ao contrário, deveria-se aprender a lidar cautelosamente com ele.”

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FICHA TÉCNICA:
Título: Eu, Robô
Autor: Isaac Asimov
Editora: Aleph
Número de Páginas: 253
Ano de Publicação: 2014
Gêneros: Ficção Científica, Contos
NOTA: 5/5

 

 

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11 Comentários

  • Aruom Fênix
    fevereiro 10, 2020

    Olha eu sou exatamente o tipo de pessoa que gosta de fazer analises, principalmente sobre o comportamento humano, gostei muito dos pontos que você destacou do livro, já vai para minha lista!

    Parabéns pelo seu trabalho

    Bjs Aruom Fênix

    Blog Leituras de Aruom

  • Karina Rodrigues
    Karina Rodrigues
    fevereiro 10, 2020

    Sou doida pra ler esse livro, tanto que nem assisti o filme pra não contaminar minha visão. O tempo foi passando e aqui estou eu sem um e sem o outro. Hahahahaha
    Em breve quero ler!

  • RENATA CRISTINA SILVA AVILA
    fevereiro 10, 2020

    Amei ler sua postagem, ficou muito boa mesmo.
    Não sou muito chegada em ficção cientifica mas sei reconhecer um clássico quando vejo um

    Bjos
    Renata Avila
    http://www.entrandonumafria.com.br

  • Erika Monteiro
    fevereiro 10, 2020

    Oi, tudo bem? Não tinha visto esse livro ainda mas me fez lembrar de um filme antigo que assisti. Quando o assunto é adaptações grande parte dos leitores sempre defende o livro (por motivos óbvios). Eu no entanto, sempre avalio o todo. Game of thrones por exemplo é uma super produção. Outlander também é incrível. The handsmade’s tale. Então não é sempre que o livro é melhor (na minha opinião). Gostei do enredo do livro. Um abraço, Érika =^.^=

  • Ana Elisa Monteiro
    fevereiro 10, 2020

    Ei Victoria, preciso dizer que eu não sou uma pessoa de sci-fi, por isso digo que apesar de ficar com vontade de ler o livro, tenho um pouco de receio.as gostei muito da forma como você escreveu a resenha. Inclusive, eu nunca assisti ao filme, mas já ouvi falar e jurava que era baseado no livro!

  • Valéria
    fevereiro 10, 2020

    Ola. Acredita que iniciei a leitura em 2017 e só esse começo de ano foi que conclui? A leitura é excelente mas na época que dei início a leitura, acabei perdendo o feeling. Então pausei na metade. Li o restante em janeiro e me encantei. Mas já conhecia a escrita de Asimov devido a outros contos dele.

    Que legal vc ter curtido a leitura.

    Küss

  • Debora Sapphire
    fevereiro 09, 2020

    Wow! Adorei demais ler a sua postagem sensacional! Porque esse tipo de conteúdo presente, realmente, me agrada muito. Enfim, eu tenho o maior carinho e admiração por essa obra: Eu, Robô! Além de ser um dos grandes clássicos da ficção científica, acho muito atrativo que reúna contos futuristas envolvendo robôs e humanos e sua interação e papel em uma mesma sociedade. Meus parabéns pelo capricho e qualidade do post!

  • lilian farias
    fevereiro 08, 2020

    Conheço o autor e já li o livro, não é exatamente o meu preferido, mas uma excelente obra, que todxs deveriam ter a oportunidade de ler um dia, ao menos é a minha opinião. Sobre sua insatisfação, é chato quando um livro não corresponde as nossas expectativas, mas eu já vejo de outra forma, acho que o obra tem que ser exatamente como foi, sem mais ou menos.

  • Carol Nery
    Carol Nery
    fevereiro 08, 2020

    Que fascinante, Vic! Taí uma obra que eu realmente quero dar uma chance!!! Algumas informações que você trouxe foram novidades pra mim, como esse ser o primeiro de outros livros, e que o filme pouco tem a ver – apesar que quando penso nesse filme, só lembro do Will Smith tomando banho nas cenas iniciais. hahahahha
    Adorei as fotos!!! Parabéns pela resenha. Beijocas

  • Hanna Carolina de Paiva
    fevereiro 08, 2020

    Sou suspeita para falar, até pq eu sou fã de Asimov. A série dos robôs eu confesso que não li, mas sou doida para ler Eu, Robô, que só conheço do filme e concordo que tem nada a ver com o livro. Bjks!
    Hanna Carolina

  • Maisa Gonçalves
    Maisa Gonçalves
    fevereiro 08, 2020

    É uma vergonha para mim, que gosto de ficção científica, não ter lido esse livro. Acho que por saber que se tratava de contos, e tinha a mesma sensação que você. Mas, como disse que há continuidade, vou dar essa chance… Parabéns pela resenha!