Eu, Robô é um dos grandes clássicos da ficção científica e reúne contos futuristas envolvendo humanos e, principalmente, robôs. Lançado originalmente em 1950 e escrito pelo célebre autor Isaac Asimov, o livro chegou ao Brasil pela Editora Aleph em 2014. É também o primeiro livro da Série Robôs, de Asimov, que mais tarde integrou a série dentro da célebre série Fundação. O livro, inclusive, teve seu título utilizado no filme Eu, Robô, com Will Smith.

O que muitos não imaginam, porém, é que o filme tem quase nenhuma semelhança com o livro, limitando-se às 3 Leis da Robótica e a uma personagem descaracterizada. Ainda assim, o filme segue bebendo na fonte de Asimov: mesmo tendo sido inicialmente baseado em obras de Agatha Christie, desde o princípio era tido como uma obra Asimoviana. Afinal, o clima de mistérios, detetives e robôs é marca muito característica do autor.

“Vocês são provisórios. Eu, por outro lado, sou um produto acabado. Absorvo energia elétrica e forma direta e a utilizo com uma eficiência de quase 100%. Sou composto e um metal resistente, meu estado de consciência é ininterrupto e posso suportar as condições extremas do ambiente com facilidade. Esses são os fatos que, com a proposição obvia de que nenhum ser pode criar outro ser superior a si mesmo, põe por terra a sua tola hipótese.”

Assim, justamente por isso Eu, Robô é um livro que diverte e nos deixa absorvidos em sua história. Confesso que, inicialmente, quando vi que se tratava de um livro de contos, fiquei com um pouquinho de preguiça. Alguns livros de contos tendem a ser desarmônicos e desconectados e isso é algo que sempre me deixou muito frustrada. Asimov, porém, nos entrega uma narrativa muito fluida e praticamente sem quebra.

Decerto, sua habilidade é tamanha que a ambientação no livro é muito fácil, mesmo ocorrendo em um tempo muito no futuro (para Asimov, que o escreveu em 1950). Os contos se passam em 2035, que para nós já está ali na esquina, e discorrem sobre a trajetória e a evolução dos robôs através do tempo. Composto por 10 contos muito bem amarrados um no outro, o livro trata muito mais da perspectiva humana do que fala de robôs em si. Para quem gosta de analisar comportamentos e refletir sobre a humanidade, é um prato cheio!

Através de uma entrevista jornalística, a narrativa dos contos é construída sobre as memórias de Susan Calvin, uma robopsicóloga extremamente bem sucedida e, sem dúvidas, a melhor em sua área. Assim, a Dra. Calvin nos transporta até o começo da utilização de robôs no mundo humano, quando nenhum deles falava e era amplamente utilizados em fábricas e até mesmo como babás.

Curiosamente, um ponto crucial da história é o de que, no princípio, os robôs sofreram grande preconceito na sociedade. Eram tidos como máquinas diabólicas e tratados de forma extremamente grosseira e desrespeitosa. Os humanos chegam a proibir a utilização de robôs no planeta e tudo isso mostra apenas o gigantesco medo das pessoas frente às Inteligências Artificias; se de um levante robótico ou de uma substituição em massa, não chega a ficar claro.

“Houve um tempo em que o homem enfrentou o universo sozinho e sem amigos. Agora ele tem criaturas para ajudá-lo; criaturas mais fortes que ele próprio, mais fiéis, mais úteis e totalmente devotadas a ele. A humanidade não está mais sozinha. […] Os robôs são uma espécie melhor e mais perfeita que a nossa.”

Eu, Robô - Isaac Asimov

Asimov, porém, nos apresenta as Três Leis da Robótica, sob as quais todo e qualquer robô é desenvolvido. Seu objetivo era de possibilitar que humanos e robôs inteligentes convivessem pacificamente, buscando tanto tranquilizar os humanos quanto manter as máquinas sob um certo controle absoluto. Essas leis são implantadas nos cérebros positrônicos dos robôs e regulam todo e qualquer comportamento. São elas:

1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

Posteriormente ao livro, Asimov acrescentou uma quarta leia, intitulada de Lei Zero, tendo como definição a proteção da humanidade a qualquer custo. O próprio autor, aliás, chegou a afirmar que as múltiplas interpretações dessas leis lhe traziam uma grande amplitude criativa para desenvolver histórias. E é exatamente isso que podemos encontrar em Eu, Robô: uma gama vasta de interpretações dessas leis. É importante citar, também, que com a progressão tecnológica que presenciamos, as leis de Asimov estão muito próximas virarem uma legislação de fato.

Certamente, a robótica e psicologia são as partes mais incríveis do livro. Mas também é possível se admirar e aproveitar o fato de que, nesse universo, os humanos foram muito, muito longe na exploração espacial. Desde minas a grandes estações de energia, a humanidade claramente foi bem além dos limites da atmosfera. E, mais ainda, no livro conseguimos acompanhar a exploração de saltos quânticos no espaço!

“– Olhem para vocês – disse ele, por fim. – Não digo isso com desdém, mas olhem para vocês! A matéria de que são feitos é macia e flácida, sem resistência nem força, e depende de uma oxidação ineficiente de matéria orgânica para obter energia… como aquilo. – Ele apontou o dedo para o que restava do sanduíche de Donovan com ar de desaprovação.”

Inegavelmente, o autor constrói não apenas em Eu, Robô, mas em toda a sua obra, um universo célebre e muito bem desenvolvido. Sua genialidade para escrever histórias (e deixar o leitor com a cabeça quente de tentar resolver um problema) é astronômica. O livro me fez dar não apenas risadas com situações cômicas, mas também me comoveu, me deixou agoniada e ansiosa para saber a raiz do problema, para entender o que estava acontecendo e encontrar soluções.

Contudo, por mais incrível que Asimov seja em sua escrita e suas criações, acredito que toda a parte dos robôs poderia ter sido mais explorada. Sua constituição, seu desenvolvimento. Mais ficção científica e um pouco menos de comportamento humano sendo repetido de formas estranhas por robôs. Talvez até mesmo mais interações entre espécies. Poderia, com certeza, afirmar que esse é o único ponto que eu fiquei levemente (beeem levemente) insatisfeita. Queria muito mais!

Acima de tudo, Eu, Robô é um livro divertido, com um ritmo de fácil leitura e que pode ficar muito frenético, como ficou comigo. Depois que comecei, foi difícil de largar. Há momentos em que você fica um pouco cansado? Claro, como é passível de acontecer em qualquer livro. Mas são momentos raros e que podem até mesmo contribuir para uma leitura mais fluida. Não é difícil de se ler, não é um livro denso, mas é uma excelente leitura e um tempo muito bem aproveitado.

“Se o conhecimento fosse perigoso, a solução seria a ignorância. Sempre me pareceu que a solução teria que ser a sabedoria. Não se deveria deixar de olhar para o perigo; ao contrário, deveria-se aprender a lidar cautelosamente com ele.”

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FICHA TÉCNICA:
Título: Eu, Robô
Autor: Isaac Asimov
Editora: Aleph
Número de Páginas: 253
Ano de Publicação: 2014
Gêneros: Ficção Científica, Contos
NOTA: 5/5