O filme “Dois Papas” é a grande aposta da Netflix para o Oscar desse ano. Após entrar de voadora na premiação no ano passado com o premiado “Roma”, o serviço de streaming vem ganhando cada vez mais credibilidade dentro da academia. E não é pra menos, com nomes de peso na linha de frente, “Dois Papas” explora algo que ainda não havia sido feito, o por trás das portas do conclave de escolha de um novo Papa e os fatos que levaram à situação inédita de renúncia de um Papa da Igreja Católica. E tudo isso com um diretor brasileiro!

Temos como início do filme o conclave para escolha do novo Papa após a morte do Papa João Paulo II em 2005. A reunião, que ocorre na Capela Cistina, conta com Cardeais de todo o mundo. Quando chegam a um acordo, é liberada uma fumaça branca no telhado. Caso não tenham dois terços de votos para o mesmo Cardeal, é liberada uma fumaça preta e fazem a votação novamente. Então, vemos o conclave por dentro, todos reunidos, e a preferência pelos cardeais Joseph Ratzinger e Jorge Bergoglio, com posturas extremamente distintas. E uma outra diferença primordial, enquanto o alemão Ratzinger deseja o cargo, o argentino Bergoglio não.

É anunciada então a escolha de Joseph Ratzinger, que passa a ser denominado Papa Bento XVI. Em um salto no tempo, somos levados há 08 anos após o conclave, vendo Jorge Bergoglio em atividade na periferia de Buenos Aires. Ele deseja uma resposta de Roma sobre sua aposentadoria de cardeal, quando recebe uma convocação para ir à cidade. A partir daí vemos um encontro entre Bento XVI e Jorge Bergoglio, onde estes discutem suas ideias a respeito dos dogmas da Igreja. Vemos claramente a diferença entre eles, sendo um extremamente conservador e muito sério, enquanto o outro possui ideias mais liberais e é bastante extrovertido e espontâneo.

O filme é fantástico. Como católica e de um lar bastante praticante, as diferentes posturas dos dois nunca foi uma novidade para mim. Porém, temos a oportunidade de vê-los falando sobre temas específicos e polêmicos, sobre o posicionamento ideal da Igreja frente à diversas situações e suas omissões passadas. Além disso, somos levados à uma viagem pelo passado da vida dos dois, principalmente de Jorge Bergoglio.

Não pense que as questões mais sérias da Igreja Católica ficaram de fora, porque será uma inverdade. A questão da pedofilia dentro de suas próprias portas e o posicionamento de Bergoglio frente ao governo quando mais novo, por exemplo, são muito abordados. Através da conversa dos Dois Papas, você consegue ver tudo que a Igreja sempre foi e tudo que ela precisa se tornar. Não somente no âmbito de seus fiéis, mas para uma melhora social mundial.

Em questão de atuações fica até difícil dizer pra vocês como os dois atores estão bem caracterizados. Jonathan Pryce é idêntico ao Papa Francisco, e isto eu já tinha na cabeça desde que ele era o Alto Pardal de Game of Thrones. Mas além da aparência, tanto ele quanto Anthony Hopkins pegaram trejeitos dos dois papas, formas de falar e assumiram suas personalidades distintas.

Nunca antes na história da Igreja Católica houve uma renúncia de um papa, cargo que só é substituído após a morte do anterior, mas através do filme e do diálogo promovido por este, podemos entender alguns fatos que levaram o Papa Bento XVI ao afastamento. E através do paralelo entre os dois papas vivos, enxergamos um momento de mudança tangível, uma transição necessária. A postura cisuda e conservadora de Bento XVI não era mais o que funcionava frente à várias questões da sociedade.

Dois Papas

Muito nos é dito a respeito da vida e ações anteriores do Papa Francisco, a construção de sua personalidade e ações. O filme nos mostra um cardeal divertido, simples, fanático por futebol, tango e que come pizza em uma barraca em frente ao Vaticano. Alguém que valoriza a pessoa, o ser humano, independente de qualquer coisa, e não se coloca acima de ninguém. Que abdicou do uso de diversos luxos e regalias após assumir o papado, sejam elas de vestuário ou vivência.

Não existe uma confirmação oficial de que tudo que é mostrado no filme aconteceu na vida real. O encontro entre os dois antes da renúncia e a conversa aberta sobre essa mudança que viria. Porém, o diretor Fernando Meirelles afirma que todos os diálogos e situações foram baseados em fatos reais, discursos e publicações de ambos.

Contudo, ressalto que não se trata de um filme religioso e/ou de conversão. Na verdade, acredito que possa ser classificado como social e histórico. Nele não é mostrado como a Igreja Católica é boa e piedosa, ou má e corrupta. É mostrado como uma Igreja criada por homens, e por isso falha em diversos aspectos, dura em seus dogmas e inflexível por séculos, chegou ao ponto de começar a se reinventar e se perguntar qual a melhor forma de ser conduzida.