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CRÍTICA | ONE DAY AT A TIME : UM PRESENTE ESCONDIDO

12 agosto, 2019 por

Se você nunca ouviu falar dessa série, deixe-me apresentar bem rapidamente: One Day at a Time é um presentinho escondido dentro do catálogo da Netflix. É uma série de comédia com um tipo raro de humor: leve e livre de preconceitos. Retratando uma família cubana morando na Califórnia, contudo, os temas abordados são tudo menos leves.

Parece difícil, sim, conciliar a junção de tudo isso: humor leve, temas complexos e falar de tudo isso de forma educativa e sempre muito respeitosa. Mas a execução dos roteiristas praticamente olha nos nossos olhos e diz “Pelo contrário! Podemos fazer isso com maestria!”. E, de fato, é isso que a série entrega.

One Day at a Time é, na realidade, um remake de uma série de grande sucesso, com 9 temporadas exibidas entre 1975 e 1984. Pertencente à Sony, a comédia era produzida e exibida pela Netflix, em episódios de 24 a 35 minutos. Ao fim da 3° temporada, porém, foi cancelada pela Netflix sob a justificativa de contar com um público muito pequeno. Sem dúvida devido ao fato de a empresa ter dedicado quase zero atenção à divulgação da série.

Todavia, a série foi comprada por um canal relativamente menor, o Pop, e está oficialmente renovada para uma quarta temporada. A notícia foi recebida com grande comemoração do elenco e dos fãs, que por meses fizeram campanha em redes sociais para que a série fosse salva. Não existe, porém, previsão de estreia da nova temporada (ainda).

Em resumo, a história é a de uma família imigrante composta por uma mãe solteira, Penélope (Justina Machado), com seus dois filhos, Elena (Isabella Gomez) e Alex (Marcel Ruiz). A cereja no topo fica por conta da mãe de Penélope, Lydia (Rita Moreno). A abuelita, como é chamada pelos netos, tem um glamour e personalidade forte que marcam a série e tornam sua presença ali indispensável.

Em virtude de sua origem cubana, a família constantemente se depara com situações de preconceito gritante e até mesmo racismo. O que conquista é a forma como temas espinhosos são tratados dentro da tela.

Homofobia e todo o processo de se descobrir e se assumir gay, drogas na adolescência, imigração, preconceito, racismo, política e até mesmo depressão, luto, ansiedade, alcoolismo. Todos esses assuntos estão presentes em One Day at a Time sem que, nem por um segundo, a série se torne sombria ou o clima fique pesado.

Todas as personagens, apesar de lidarem com problemas sérios e complicados, tem algo de muito único à acrescentar. Unindo-se à família temos Schneider, o senhorio e dono do prédio onde a família Alvarez reside. Mais que isso, ele é um agregado importante e sempre presente na vida de todos eles. Aos poucos ele se torna praticamente parte da família e prova seu valor.

Essencialmente, a série nos traz um universo muito real de uma forma muito suave. É possível aprender muito com cada episódio e cada situação vivida. Mas é necessário, porém, observarmos que nem tudo na série se resume a vivenciar problemas. Claro que existem muitos momentos em família e entre amigos que são marcantes e divertidos.

One Day at a Time, afinal, dá uma aula incrível de como fazer uma comédia inteligente mas que ainda se utiliza de uma narrativa tradicional de sitcom. É importante ressaltar que sitcom é um gênero praticamente já batido, em que já vimos de tudo, e acaba que nada é realmente muito novo. Poderia se tratar de apenas mais um remake, como vem acontecendo cada vez mais, mas a série se destaca e se sobressai em um mercado supostamente saturado.

Na história, Penelope é uma mãe recém-divorciada e veterana de guerra, tentando se adaptar ao retorno à vida de solteira e conciliar tudo isso com a maternidade, o trabalho e sustentar a casa sozinha. Assim, não surpreende que a série tenha grande fundamentação em valores fortemente familiares.

Contudo, quando falamos de valores familiares (eu sei que algumas pessoas até reviraram os olhos só de ler isso), o que queremos dizer é que a série valoriza o âmbito familiar. No sentido de tratar a família como um lugar seguro e respeitoso para se estar. No sentido de toda a formação básica de um ser humano se dar ali, no seio familiar.

ONE DAY AT A TIME

Primordialmente, os roteiristas visaram ambientar e contextualizar o dia-a-dia da família no cenário político e social atual dos Estados Unidos. O discurso pode parecer inofensivo, disfarçado sob um tom risonhos e bem humorado, mas a crítica é ferrenha. Especialmente no que tange a política de imigração e o comportamento social de algumas pessoas quanto ao assunto.

Falando abertamente, a série retrata como a xenofobia está intrincada na cultura americana e pode até mesmo passar despercebida. Mas não por quem é uma vítima dela. E, certamente, não aos olhos do espectador: capaz de vivenciar o sofrimento e dor causados aos personagens por conta disso, é impossível fingir que não se vê algo, como constantemente acontece na vida real.

One Day at a Time brinca, relaxa e diverte. Similarmente, ensina, chama a atenção e até mesmo dá broncas. De forma responsável, apresenta alguns estereótipos divertidos mas sensíveis. E uma série que se apresenta de forma leve, apesar de densa, não merece apresentação diferente: icônica, destemida e absolutamente única.

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