O filme que levou pela primeira vez o paraguaio Marcelo Martinessi ao Festival Internacional de Cinema de Berlim.  ‘As Herdeiras’ é um drama pesado e reflexivo que conta a decadência das classes sociais, após o golpe parlamentar que frustrou os objetivos da economia no país. Um resultado absolutamente impecável da forte ressonância intelectual, condizente com o momento que se vive a América Latina e o resto do mundo.

Com estreia marcada para o dia 30 de agosto, o filme conta a história de Chela e Chiquita, um casal gay que vive juntas há muitos anos e passam por dificuldades financeiras. Após precisarem vender seus bens para poder sobreviver, Chiquita ainda é presa por fraude e Chela herdeira abastada é obrigada a trabalhar pela primeira vez como taxista.

A trama então se intercala entre as visitas a penitenciária de Assunção e a casa das passageiras, onde Chela conhece Angy, uma mulher sedutora recém separada que faz com que Chela esqueça a sua atual fase de vida e volte a sonhar com novas possibilidades que estavam aprisionadas em um mundo de aparências, relações incompletas e absurdas.

O diretor entrega um filme acima de tudo sutilmente feminista, mas sem o esforço de ressonar como algo explícito, dando ao leitor a possibilidade de refletir e descobrir o tema por de trás do enredo principal.  É uma história sobre mulheres vividas que lutam para sobreviver no mundo, deixando palavras de ordem ou discursos envelhecidos de lado. Fazem isso por si, pelo que vivem e pelo dia a dia que enfrentam. E uma reflexão fica no ar: Como tomar as decisões acertadas, quando há muito tempo se está habituada a apenas aceitar o que lhe é imposto, sem nem ao menos refletir a respeito?

Em tons sérios e escuros, o filme é um movimento ideal para quem curte algo mais cult e reflexivo, fugindo do modelo hollywoodiano dos cinemas. Sem nenhuma ação e com cenas repetitivas, o drama leva o espectador a refletir sobre como vive a elite decadente do século 20 que se adaptou às mudanças impostas, após a sua terceira idade, onde o dinheiro não é mais suficiente e não conseguem admitir a nova situação financeira.

Como destaque vemos a atuação de Ana Brun, que nunca havia atuado antes e carrega tudo no olhar.  A protagonista mostra em suas palavras a dor que que se faz presente por meio de murmúrios e quase pedidos de desculpas. É a simbologia de quem já teve de tudo, entregue em uma badeja de prata, mas que agora precisa se acostumar com uma eventual massagem nos pés e ainda agradecendo por isso. Margarita Irun que interpreta sua companheira também de forma brilhante é carinho, mas também determinação. Reconhecendo as fragilidades da amante, mantém uma convivência entre as duas daquele tipo já solidificado pelo tempo, sem meias palavras, onde tudo parte de uma compreensão prévia.

O sucesso de crítica mostra uma sequência de silêncios intermináveis e se encerra com a alteração do equilíbrio imaginário em que as personagens principais viviam, as obrigando a transformar um mundo que até então permanecia parado. Nesta realidade o filme mostra que não será a orientação sexual, a idade, a condição financeira ou social que irá fazer diferença. Seja aqui ou em qualquer lugar, enfim, ser mais do que feliz: plena.

Confira um pouco de tudo que poderá ser sentido nas salas de cinema:

Distribuidora: IMOVISION
Estreia: 30/08/2018
Gênero: Drama
Duração: 1h38min