“Corpos Ocultos” vem logo após o aclamado Você. E se você não leu o primeiro livro, ou se nem assistiu a primeira temporada da série na Netflix, essa resenha poderá (ou não) conter spoilers dos primórdios da vida de Joe Goldberg. No entanto, se você está interessado em ler “Corpos Ocultos” pode vir tranquilo! Não teremos spoiler desse livro.

Em Você temos a certeza de que Joe nada mais é que um bibliófilo psicótico. Ele tem facilidade extrema em se encantar com determinada garota, e assim, torna-la motivo número um de sua existência. Joe consegue arrumar formas e maneiras de se tornar próximo daquela mulher, e de ir se tornando de certa forma, alguém essencial – um amigo presente, querido, bastante cavalheiro, que é também alguém charmoso, tem bom humor, é muito inteligente e praticamente não há o que ele não faça por “você” (caso você tenha o azar de ser o “você” dele). Então, agora em “Corpos Ocultos”, encontramos um Joe pós Guinevere Beck.

Nesse primeiro livro não registrei a contagem de corpos que Goldberg deixa enquanto faz de Beck seu mundo, e se torna seu namorado perfeito. Até que as coisas terminaram daquela forma que já sabemos! Agora, o rapaz se libertou daquele relacionamento doentio, com alguém que ele pensou ser perfeita, mas era cheia de defeitos… Convenhamos! [ironia mode on] O rapaz ainda trabalha na Mooney Books, aquela livraria no Lower East Side (New York). E ele tem um novo relacionamento com uma garota chamada Amy Adams. Ela também trabalha lá. Estão vivendo maravilhosamente bem… Como só Joe é capaz de proporcionar a um relacionamento quando ele está com quem ele quer!

“… é desconfortável, meu pescoço está doendo e me ocorre que eu podia sair de tudo isso, de tudo, e voltar à Nova York.”

Tudo está muito bem em “Corpos Ocultos”, até que não está mais, não é mesmo? Amy não é quem Joe pensa. Ela mentiu, contracenou o tempo todo, enganou e roubou o rei dos enganadores. Como assim?! Joe não percebeu que Amy não era quem dizia ser. Ele relaxou, não pesquisou, não a seguiu, e agora foi passado para trás. Nessa empreitada, a garota roubou livros raros e partiu de NY. Só que Joe é o mesmo Joe que vimos em Você. Dificilmente ele perdoa algo do tipo… E para “Corpos Ocultos” começar a acontecer, Joe descobre para onde Amy se mandou e sabe o que ele faz? AS MALAS. Ele vai à caça da namorada não tão perfeita assim.

“Corpos Ocultos” nos mostra que Joe é o que é. Um assassino, um serial killer. Uma pessoa que tem um temperamento muito dúbio e tênue. Alguém com quem você não deveria sequer brincar. E nessa bagunça que virou a vida nova-iorquina de Joe, ele salta para o futuro, direto a Los Angeles, exatamente em Hollywood. É ali que sua busca implacável por Amy começa. Fazendo assim com que o psicopata preferido de uma galera aí consiga fazer amizades, um lugar para morar, e começa a perceber como todos por ali possuem aspirações pela fama – o que pode ser um pouco desprezível e um pouco desesperador.

“Sinto-me sendo assassinado, lentamente, como costumavam drenar o sangue das pessoas.”

CORPOS OCULTOS – CAROLINE KEPNES

O Joe de “Corpos Ocultos” continua nessa busca pela ladra, atrás de informações e dicas, e “tropeçando” em sexo por vezes ou outras. Acredito que a autora considera essa abordagem, e o sex appeal importantes na caracterização do psicopata do amor. Outra coisa interessante – e eu acredito que Kepnes se preocupou com isso tamanha a crítica depois de Você a respeito de tal fato – é que Goldberg é extremamente ‘neurado’ a respeito do xixi que deixou no armário, lá na casa da amiga apaixonada por Beck. Seu DNA na casa prova que Joe esteve ali, o que possivelmente o colocaria no topo dos suspeitos do assassinato de Peach Salinger. E vira e mexe esse incômodo fica apitando no cérebro de Joe.

A própria autora considera seu protagonista assassino uma pessoa terrivelmente engraçada e estranhamente sedutora. O que há meu ver faz com que a adaptação pela Netflix tenha alcançado tamanho clamor pelo público. Penn Badgley consegue ser MUITO o Joe que leio nas páginas da autora. E eu embora tenha assistido as duas temporadas da série, só as assisti após acabar cada livro respectivamente. E não tem jeito, o Penn é o Joey perfeito. É estranha a sedução que ele transpira, não sendo nenhum modelo de beleza perfeita que poderíamos ter visto nas telas. Mas, alguém que bem poderia trabalhar em uma livraria, e esconder seus segredos sangrentos por trás de uma falsa imagem de bom moço.

“Neste quarto, nesta cama, raras vezes penso na caneca de urina em Rhode Island. É como se existissem guardas invisíveis lá fora, como se ninguém pudesse nos pegar, nosso DNA, nosso passado.”

Goldberg continua com aquele estopim violento dentro de si. Se as pessoas estiverem atrapalhando seus projetos, se alguém bobear no caminho dele, ele não terá pudores em eliminar essas dificuldades. E quando digo eliminar, eu quero dizer isso que vocês estão pensando mesmo. Acho que em “Corpos Ocultos” o rapaz está mais solto, e está decidindo matar muito mais fácil. Ou ele tomou gosto pela coisa, ou simplesmente seu instinto psicopata está cada vez com mais fome, e ele não consegue controlar.

E, claro… Amy não é o foco do amor obsessivo de Joe neste livro. E sim Love Quinn. Ah, Love. Perfeitamente imperfeita e o número certo para o Joe. É isso mesmo? Algumas pessoas vivem a ambivalência de torcer ou não torcer pelo jovem psicopata. “E daí se ele matou no passado? Agora ele tá fazendo as coisas direitinho para ficar com a Love”. Será bem assim? Dúvidas e sentimentos estranhos permeiam a gente durante a leitura. E eu não te culpo se você se sentir assim. Nem te julgo. Joe consegue ser incrivelmente sedutor e persuasivo. Acho muito interessante a autora ressaltar as partes onde ele se preocupa, onde acha que tudo vai acabar mal, que ele não é uma boa pessoa. É muito importante esse tipo de desenvolvimento para a personagem dele. Contudo, sabemos que por amor, tudo vale. Né mesmo, senhor Goldberg?

“– O motivo por termos nos conhecido. – Love é atrevida; Love é safada.”

King disse que esse livro é hipnótico e assustador. Não creio tanto nisso, quando se é viciada nas obras do dito cujo. Só que com um título como “Corpos Ocultos” a gente tenta decifrar o sentido da escolha do título. Se você não tem essa mania, eu tenho! hahaha O que descobri, é que o problema a respeito de “Corpos Ocultos”, é que nem sempre eles ficam assim. E adorei o título após essa breve iluminação. Pois Joe pode não ter sido descoberto por seus crimes, não obstante seus crimes nunca o deixam totalmente livre.

E ele precisará se sentir livre para viver plenamente esse novo romance com Love. Então é disso que se trata “Corpos Ocultos” de fato. De como ser a pessoa que Love merece. Essa mulher que já teve suas doses de drama no decorrer da vida. Família abastada – herdeira de uma cadeia de supermercados voltados aos orgânicos; tem Forty – um irmão gêmeo meio que problemático e com uso abusivo em substâncias psicoativas; um marido falecido devido a um câncer… A vida dela não foi fácil, mesmo em meio a tanto luxo e riqueza (e umas manias de gente rYca).

“Love e eu estamos um de frente para o outro, e ainda assim, ela não olha para mim.”

O que basta saber é se o anti-herói Joe Goldberg terá em Love sua tábua de salvação – o grande amor que ele humilhantemente busca uma mulher atrás da outra –, ou se Love será mais uma vítima inocente nas mãos daquele que não sabe lidar com o que tem. Mas, essa trama toda será mais bem apreciada se você fizer a leitura. Não vou contar mais nada… Ainda ressalto aqui, finalmente, que o fim do livro #2 de Kepnes deixa a gente desesperados em saber o que vai acontecer com o protagonista. É! Teremos que ler um terceiro livro. Mas, isso vai acontecer?

“Não sei o que fiz de errado, mas sei o que ela fez; tudo vai para inferno quando elas querem ser atrizes.”

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Título: Corpos Ocultos
Autora: Caroline Kepnes
Ano: 2019
Páginas: 352
Editora: Rocco
Gênero: Ficção / Literatura Estrangeira / Suspense e Mistério
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