“CORINGA” está super aguardado e enfim entra hoje em cartaz. Promessa de uma origem para o Palhaço do Crime, o filme já foi premiado e está rendendo bons comentários por quem já assistiu. Considerando ser este um personagem icônico da DC Comics, estou aqui para dizer se acho que o filme fará parte da lista de acertos do seu estúdio.

Arthur Fleck vive em condições precárias com sua mãe idosa, Penny. Trabalha como palhaço terceirizado para uma agência de talentos, mas está longe de sua satisfação profissional. Em meio a uma Gotham de puro caos, com desemprego, violência, sujeira e ratos, ele é humilhado e agredido com frequência.

A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se porte como se não tivesse.

Fleck possui sérios problemas psiquiátricos e, negligenciado pelas autoridades, acaba se vendo sem nenhum auxílio ou acompanhamento. Mas um dia reage às provocações de três homens no metrô e os mata. Com estes crimes sofre um “despertar” de poder e causa diretamente uma onda extremamente violenta de manifestações pela cidade onde ele é o representante principal. O excluído passa a ser visto.

Antes de mais nada, se você espera um filme de super-heróis, não é aqui que vai encontrar. No entanto, com uma proposta bem dramática e intensa o filme aborda o desenvolvimento da mente doentia do Coringa. Ainda que muito conhecido até por quem não lê suas histórias, o que vemos ali é diferente. É alguém chegando ao seu limite e ultrapassando.

Nada mais pode me machucar.

O Coringa é um personagem cruel, manipulador, agressivo e impiedoso. O personagem que vemos em cena não está longe disso nem mesmo em seu início como Arthur Fleck. Traços de sua personalidade sendo moldada são mostrados desde as cenas iniciais. Ele já era um desajustado, esquisito, com grandes transtornos mentais e uma risada bizarra e incontrolável.

Em suas histórias não existe uma origem definitiva para o personagem. Várias já foram abordadas, embora com algumas semelhanças entre elas. Em quase todas é consenso um comediante fracassado com graves problemas financeiros. No entanto, achei essa abordagem do filme sensacional. Você consegue claramente seguir os passos de seu desenvolvimento.

Só espero que minha morte faça mais sentido que a minha vida.

Algumas críticas já surgiram apontando uma romantização na tentativa de humanização de um personagem tão perverso. Ao meu ver isso não aconteceu. O filme mostra claramente que Arthur Fleck chegou ao Coringa por consequência de seus atos e escolhas, embora o ambiente tenha contribuído para tal. Então, neste ponto vejo mais uma crítica social do que uma romantização.

Arthur Fleck sofre pelo desemprego, pela falta de dinheiro, pela carreira sem sucesso, a vida solitária… Ao mesmo tempo que é fruto de um lar disfuncional, com ausências e abusos. É um alguém sem esperanças que não tem nada a perder. Sendo negligenciado em várias esferas de sua vida, encontra poder e reconhecimento no macabro, no liberar sua mente para fazer tudo aquilo que se privava.

Ao final vejo toda a situação principalmente como um alerta. Somos testados diariamente em nossos limites. Em tempos de tamanha importância e preocupação com a saúde mental, vemos alguém perder totalmente suas barreiras e se render a “loucura”.

Achava que minha vida era uma tragédia mas na verdade é uma comédia.

O longa é de extrema qualidade. Ambientado nos anos 80, temos uma fotografia que acompanha seu personagem principal. Inicialmente com tons pastéis e sóbrios, onde a cor vai se intensificando no Coringa, no seu surgimento. A trilha sonora é igualmente admirável, contribuindo muito para o clímax do filme.

Joaquim Phoenix está sensacional, digno de um lugar de destaque entre “Os Coringas” icônicos e famosos do cinema. Extremamente magro e transformado, Phoenix representa com maestria as bizarrices, dancinhas da morte, transtornos e maldade do personagem. Ele dá a ele um tom melancólico e perigoso, um olhar desfocado e muita agressividade. Até mesmo as risadas do Coringa foram levadas a outro patamar, mas cru e real.

Desculpe, tenho a risada incontrolável.

Acredito que uma das principais inspirações para a construção do personagem tenha sido HQ “Piada Mortal”. Nela, assim como no filme, temos um Coringa nada cômico, com foco em sua brutalidade e impulsividade. Também existem referências e inspirações a filmes conhecidos, como “Taxi Driver” e “O Rei da Comédia”, ambos do diretor Martin Scorcese.

As ruas da Gotham sem leis são moldadas semelhante à fotografia do primeiro, e o segundo tem papel principal na modelagem da postura e despertar do personagem principal, tendo a participação inclusive do ator Robert De Niro que protagonizou o filme.

Existe ainda uma referência super especial a “Tempos Modernos” de Charlie Chaplin. Nada mais justo, uma vez que o filme aborda um levante popular contra a elite de Gotham (fiquem atentos porque os Wayne entram nesse contexto aqui, hein!).

Fascinante, psicológico, político e até poético, “Coringa” conquistou o Leão de Ouro, principal prêmio do importante Festival de Cinema de Veneza. Além de ser aplaudido de pé por 8 minutos. Acredito que o filme seja um grande candidato ao Oscar, se conseguir contornar as polêmicas a respeito da forma como retratou o homem que, ao tentar se integrar à sociedade, acabou se cansando da piada ser sempre ele mesmo. Bom, o meu voto ele já tem.

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CORINGA FILME 2019
Data de lançamento: 3 de outubro de 2019
Duração: 2h 02min
Direção: Todd Phillips
Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz mais
Gênero: Drama,Suspense
Música composta por: Hildur Guðnadóttir
Prêmios: Leão de Ouro
Roteiro: Todd Phillips, Scott Silver
Nacionalidades: EUA, Canadá