Após 30 anos de lançamento do primeiro filme, recebemos o anúncio do remake de “Convenção das Bruxas”, deixando muitos eufóricos e apreensivos. Trata-se de um clássico dos anos 90, sendo uma responsabilidade imensa revisitar os infortúnios e aventuras da vida de um pobre garoto ao se deparar com maldosas bruxas. E a missão tem gente muito competente e brilhante escalada! Além de Anne Hathaway e Octavia Spencer em papéis principais, temos como diretor Robert Zemeckis (De Volta Para o Futuro, Forrest Gump) e na produção Guillermo Del Toro (O Labirinto do Fauno, A Forma da Água). Definitivamente uma produção planejada para agradar crianças e adultos (as crianças de 90, né!).

Um garoto (Jahzir Bruno) de 07 anos que acabou de perder os pais em um acidente vai viver com a avó (Octavia Spencer) em uma cidade rural no Alabama. A avó tem um coração enorme e faz de tudo para tirar o neto de toda aquela aura de tristeza. Quando começa a conseguir, algo inesperado surge: o garoto é confrontado por uma bruxa que além de persegui-los, ainda adoece a sua avó. O garoto vai descobrir então que a avó é muito mais do que imaginava, uma verdadeira curandeira que trava uma batalha contra as bruxas há anos.

Para fugir do perigo iminente, pois, além de odiar crianças, uma bruxa nunca desiste do seu alvo, a avó decide levar seu neto para um grande e renomado resort onde tem um amigo. Lá poderão se proteger e descansar. Mas o que não contava é que exatamente neste resort está se reunindo um enorme clã de bruxas, sob o comando da líder, a malvada Grande Rainha Bruxa (Anne Hathaway). O tema do encontro é definir como exterminar todas as crianças do mundo, sendo a mais nova ideia transformá-los em ratos e esmagá-los. O garoto se encontra então no último lugar onde deveria estar, e junto à avó e novos amigos (ou outras vítimas) irá tentar combater o mal e salvar mais crianças.

Como eu sou uma criança dos anos 90, crescida à base de sessão da tarde, esse filme me deixou muito animada. Confesso que gostei muito do resultado final, o filme ficou muito divertido e interessante, além de carregar fortes mensagens. Não sei dizer bem se isso se refere mais à minha memória infantil, porém eu tinha uma ideia muito mais macabra dessa história. Em “Convenção das Bruxas” de 1990, lembro inclusive de me esconder pra não assistir algumas partes. Já agora, tudo me parece uma grande fantasia!

Claro, eu cresci. Eu sei. Mas acredito que nossa sociedade, e consequentemente nossas crianças, também tenham mudado muito de lá pra cá. E talvez seja esse o grande desafio que o remake vai encontrar em seu novo público mirim. Ao trazer um enredo praticamente idêntico ao seu antecessor, ele se depara com crianças que não tem mais como um grande medo “serem transformadas em ratos”, ou ainda “encontrarem uma bruxa com um doce camuflado”. Tem que batalhar pra causar impacto na geração TV/internet/videogame, ainda assim, achei que a produção fez um excelente trabalho, pois as maquiagens e efeitos especiais ficaram ótimos!

Não importa quem você seja ou qual sua aparência, desde que alguém ame você!

E se por um lado “Convenção das Bruxas” repete a receita de bolo de seu antecessor de 30 anos atrás, preocupa-se também em trazer uma enorme, atual e necessária mensagem, que em minha opinião foi seu ponto alto. O filme abre um importante discurso de racismo, colocando o garoto e sua avó sendo personagens negros, vivendo no segregado estado sulista americano do Alabama em 1967. Este período foi marcado por grandes manifestações pelos direitos dos negros no país. Inclusive no estado do Alabama houve o “estopim” com o caso de Rosa Parks, em 1955, onde esta foi obrigada a dar seu lugar no ônibus para um branco que estava em pé (como mandava a Lei), mas se recusou e por isso foi presa.

Então, qual foi a grande sacada corajosa do filme?! Ele direciona o nosso olhar em um filme de fantasia para a situação e pergunta: “Sabe por que as bruxas sempre atacaram mais as crianças negras, suas principais vítimas? Porque ninguém nunca se importou com elas. Elas escolhiam as que tinham menos chance de serem descobertas ou investigadas.” Já no resort, todos os funcionários são negros, enquanto todos os hóspedes são brancos, o que causa uma grande surpresa em todos com a chegada da avó e seu neto para se hospedarem. Ah, claro, e gera a sensacional conclusão da avó “E existe lugar mais seguro nesse país do que no meio dos brancos e ricos?!”

Stanley Tucci

Muito se é dito sobre representatividade, geralmente camuflada com a inclusão de alguns personagens aleatórios pra preencher certa cota imaginária. Um amigo do protagonista, um pretendente que não vai pra frente, o pai de algum personagem, um professor… Mas na minha opinião, para considerar um filme representativo ele deve ter atores negros como protagonistas, responsáveis por carregar a mensagem da história.

Por falar em mensagem, que coisa linda! Octavia Spencer, como sempre, dá show em atuação e emociona como a avó que é a base familiar do seu neto que perdeu tudo de uma hora pra outra. É impossível não exergar através da relação dos dois, e posteriormente na narração do Chris Rock que está ótima, toda a importância da família, do amor e da amizade.

Nunca rejeite o que você é por dentro!

Anne Hathaway The Witches

Já Anne Hathaway ficou com a difícil missão de repetir o papel icônico de Anjelica Houston (a famoooosa Morticia Adams) e o fez muito bem, conseguindo dar sua cara a ele. Com uma boca bem macabra, se abrindo até as orelhas, e um sotaque bem carregado, ela conseguiu inclusive compensar o excesso de cores que a diferenciam da sóbria Grande Bruxa de 1990, e causar sustos com suas aparições repentinas.

Enfim, em meio às incertezas deste período de pandemia, recebemos o anúncio da reabertura dos cinemas já com o convite para esse grande filme. Apesar do receio de retornar, me surpreendi ao ver todas as medidas de segurança tomadas e como tudo tem se adaptado à essa nova realidade.