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CARTAS PARA MARTIN – NIC STONE | RESENHA

08 outubro, 2020 por

Em “Cartas para Martin” Justyce McAllister é um adolescente negro com um futuro brilhante pela frente. É um dos melhores alunos de uma das melhores escolas de Atlanta, tem uma mãe amorosa e um melhor amigo. Mas as coisas mudam quando ele se vê no chão, algemado, apenas por ser negro tentar ajudar a ex-namorada bêbada.

Após o episódio de violência policial que sofreu, o jovem começa a ver as coisas de uma forma diferente. Justyce começa a perceber todas as injustiças e violências causadas pelo racismo e isso começa a pesar no coração do garoto.  Por isso, ele começa o projeto “Cartas para Martin”, onde escreve cartas para Martin Luther King com a pergunta: O que Martin faria? Com a intenção de se tornar uma pessoa melhor e não sentir mais tanta raiva, que os atos de racismo vem fazendo ele sentir. Essa é a sinopse do novo lançamento da Intrínseca, escrito por Nic Stone.

Vou começar dizendo que esse é um livro necessário, para todo mundo. E vou explicar o porquê. Em pleno 2020, ainda vivemos em uma sociedade muito preconceituosa e cheia de julgamentos para com os negros. É diária a violência contra os negros, seja por policiais ou civis. É verdade que nos últimos meses, muitas ações acabaram sendo noticiadas pela mídia, mas não devemos esquecer que existem muitas outras, que ficam escondidas e que acontecem todos os dias.

“Pode até não haver mais bebedouros separados para as pessoas “de cor”, e racismo hoje em dia é crime, mas, se eu ainda posso ser forçado a sentar no chão de concreto com algemas apertando meus pulsos mesmo sem ter feito nada errado, é bem óbvio que temos um problema. Que a sociedade não é tão igualitária quanto as pessoas gostam de dizer.”

Quero dizer, que como mulher, eu sei o que é andar na rua e ter medo e receio do que pode acontecer. Não vou dizer que eu entendo o que Justyce e outros personagens passam, porque eu não sei. Por mais que eu seja o resultado da miscigenação do Brasil, eu nunca sofri o tipo de preconceito e olhar que o livro retrata. E eu acho necessário que todos leiam e entendam o que isso representa na vida das pessoas.

A obra fala sobre o racismo, visto pelos olhos de um negro que depois de viver por anos em uma comunidade, tem a oportunidade de ir para um colégio referência, que tem sua maioria branca. Um negro, de periferia, em um mundo de pessoas brancas e ricas, é essa a vida que Justyce leva.

Como melhor amigo, tem Manny, um dos únicos negros da escola, mas que sempre conviveu com pessoas brancas. É interessante ver que por causa da sua posição social, Manny acabou sendo protegido de muitas coisas. É impactante ver quando finalmente a ficha do personagem cai e em tudo o que acontece tanto na vida dele, quanto na de Justyce. A amizade dos dois é algo muito bonito, e não direi mais nada para não dar spoilers.

“(…) mas o fato é que ninguém olha para nós dois e já presume automaticamente que vamos fazer algo errado.”

Outra pessoa presente na vida de Justyce é Sarah-Jane ou SJ, a dupla dele em debates. Uma menina forte e que corre atrás de defender as pessoas e injustiças que possam ocorrer. Além de tentar mostrar para algumas pessoas no colégio, que o racismo existe e é real. É interessante ver a dinâmica da relação de Jus com SJ, como a amizade deles se deu e foi evoluindo, além de todos os receios que Jus tem com ela, não pela garota, mas sim da mãe dele a conhecendo. Mas essa é uma coisa para vocês lerem na história.

Quero dizer que o livro foi rápido de ser lido (a escrita de Nic é maravilhosa), apesar de não ser fácil. Digo isso porque ele tem uma carga emocional bem forte. Em vários momentos da leitura, eu tive que parar e respirar, simplesmente porque eu ficava pensando que apesar de ser uma história de ficção, o racismo e a violência retratados são bem reais e acontecem todos os dias. Não podemos fechar os olhos para isso. Em alguns momentos da leitura, eu realmente senti as lágrimas nos olhos e um sentimento de indignação forte começou a crescer.

“Cartas para Martin” traz mensagens maravilhosas para todos. Como por exemplo, a de que nunca é tarde para repensar suas ações. Temos acontecimentos muito fortes na história e que ao final, faz com que alguns personagens repensem suas ações. Acredito fortemente que o importante é aprender e se redimir, que a vida é uma escola diária.

Durante a leitura, eu mesma comecei a repensar ações, será que algo que eu tenha feito feriu alguma pessoa sem que eu me desse conta? Nunca é tarde para aprender a ser uma pessoas melhor e ter consciência das coisas e empatia pelas pessoas. Muito além de representatividade, acho que Nic queria fazer um livro para que as pessoas repensassem suas ações e refletissem, sobre o racismo e a desigualdade entre brancos e negros.

Nic Stone nasceu e foi criada no subúrbio de Atlanta. Depois de se formar ela trabalhou como mentora de adolescentes e morou em Israel por alguns anos antes de voltar para os Estados Unidos e começar a escrever em tempo integral. Tendo crescido no meio de uma variedade de culturas, religiões e origens, ela tenta trazer diversas vozes e histórias para os seus trabalhos. “Cartas para Martin” é o primeiro livro da autora lançado no Brasil, e quero muito conhecer outros.

Enquanto estava pesquisando sobre o livro, vi que Nic pretende lançar um segundo chamado “Dear, Justyce”. Que conta um pouco sobre Quan, um menino que vocês irão conhecer em “Cartas para Martin”. Espero, de verdade, que a Intrínseca traga essa e outras obras da autora para o Brasil. Outra coisa que descobri, é que ela fez um guia de discussão para o livro. Para quem quiser ler e fazer um grupo de discussão, é só clicar aqui para ver o guia!

Para finalizar, gostaria de deixar mais algumas citações que destaquei ao longo da leitura e que não consigo deixar fora dessa resenha:

“Eu acredito que a verdade desarmada e o amor incondicional terão a última palavra sobre a realidade.”

“É preto levando bala a torto e a direito, não pode nem levar uma bala ou um celular no bolso. Imagina o que teria acontecido comigo se eu estivesse com o celular marcando a roupa naquela noite? Eu podia estar morto. Por que tudo isso?”

“Pra que tentar andar na linha se as pessoas sempre vão olhar pra minha cara e esperar o pior?”

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Título: Cartas para Martin
Autora: Nic Stone
Ano: 2020
Páginas: 256
Editora: Intrínseca
Gênero: Jovem Adulto
Nota: 5/5
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1 Comentário

  • Angela Cunha
    outubro 19, 2020

    Infelizmente, esse é o tipo de livro que precisa existir para que cada vez mais, as pessoas aprendam a respeitar o irmão.
    Estamos num ano complicado, onde o racismo ganhou ares gigantescos e isso dói na alma.
    Justyce passa o que muitos negros passam diariamente.
    É preciso continuar lutando dia a dia, para que o racismo ao menos, ao menos, diminua!
    O livro já está na listinha dos mais desejados!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/O Vazio na flor