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AS CRÔNICAS DE NÁRNIA – C. S. LEWIS | RESENHA

18 março, 2020 por

As Cronicas de Nárnia

As Crônicas de Nárnia é derivada de uma série de sete livros de fantasia escrita por C. S Lewis entre 1949 e 1954, que foram publicadas separadamente, e depois reunidas em um único livro, como é a versão mais difundida hoje em dia. São estórias com protagonistas, quase sempre crianças que, ao visitar Nárnia, encontravam grandes desafios, o que as levavam a amadurecer e acreditar no valor de si mesmas.

O Sobrinho do Mago é o primeiro livro das crônicas, apesar de originalmente ter sido escrito por último. Aqui, temos duas crianças, Polly e Digory, esse último o sobrinho de um grande mago que busca por universos paralelos. Como o tio é precavido, manda o sobrinho e sua vizinha para este lugar desconhecido. Lá, eles encontram Aslam, um leão, que vai criar Nárnia (numa referência ao Gênesis), e dá uma maçã para Digory levar para sua mãe enferma. As sementes dessa maçã são plantadas, e da árvore é feito um armário, que vai ser importante na estória seguinte.

“O Leão andava de um lado para o outro na terra nua, cantando a nova canção. (…) À medida que caminhava e cantava o vale ia ficando verdade de capim. O capim se espalhava desde onde estava o Leão, como uma força, e subia pelas encostas dos pequenos montes como uma onda. Em poucos minutos deslizava pelas vertentes mais baixas das montanhas distantes, suavizando cada vez mais aquele mundo novo.”

AS CRÔNICAS DE NÁRNIA - C. S. LEWIS

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa

É o reencontro com Digory, que está mais velho, e que recebe em sua casa quatro crianças que vão morar com ele por conta da Guerra: Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia. A caçula acaba descobrindo o guarda roupa feito com a madeira da macieira, e que a leva para Nárnia, onde conhece o fauno Tumnus, que conta que Nárnia é governada pela implacável Feiticeira Branca, que trouxe um inverno eterno como castigo. Quando ela retorna e conta tudo o que viu, seus irmãos não acreditam, pois parece que Lúcia estava apenas alguns minutos sozinha – sim, o tempo passa diferente naquele universo. Edmundo entra no guarda roupa sozinho, encontrando a Feiticeira Branca, que o convence a ajudá-la. Ludibriado a trair seus irmãos, Edmundo vai acabar carregando essa culpa por toda a vida.

“Uma velhíssima tradição de Nárnia já anunciava que, quando dois Filhos de Adão e duas Filhas de Eva se sentarem nos quatro tronos, então será o fim, não só do reinado da feiticeira, mas da própria feiticeira.”

O Cavalo e Seu Menino

Nos apresenta Calormânia, reino vizinho de Nárnia. Shasta é um menino escravo que foge com um cavalo, que por acaso é falante. Durante sua fuga, ele encontra a garota Aravis e sua égua; os quatro então se juntam. Como descobrem que os calormanos pretendem invadir o reino da Arquelândia e depois Nárnia, uma vez que o príncipe da Calormânia estava ofendido por Susana, a rainha de Nárnia, ter negado seu pedido de casamento, Shasta e Aravis rumam para Nárnia na tentativa de impedir essa guerra.

“Bri: Acho que sou um estúpido.
Aslam: Feliz o cavalo que sabe disso ainda na juventude. Ou o humano.”

Príncipe Caspian

Um ano se passou desde que Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia regressaram de Nárnia – claro, como o tempo passa diferente aqui e lá, centenas de anos se passaram no reino, e os grandes reis e rainhas, bem como seu castelo, são estória. O rei, pai do Príncipe Caspian, é assassinado pelo irmão, que toma o poder e manda matar os narnianos, além de proibir os animais de falar. O príncipe Caspian, juntamente com as crianças e Aslam, vão tentar tirar o usurpador do poder.

“Um som agudo encheu a sala. E aquele som despertou nas crianças, mais que tudo, a lembrança dos velhos tempos, as batalhas, as caçadas, as festas…”

A Viagem do Peregrino da Alvorada

Apenas Lúcia e Edmundo retornam à Nárnia, juntamente com seu primo Eustáquio, que vai por engano. Eles embarcam em um navio junto ao Rei Caspian e o roedor Ripchip, em busca de sete dos antigos lordes que o rei usurpador aprisionou em diversas ilhas. Em cada uma delas, uma pequena aventura os aguarda. Vale lembrar que é a última vez que Lúcia e Edmundo poderão entrar em Nárnia…

“Jurei que se um dia estabelecesse a paz em Nárnia navegaria durante um ano para encontrar os amigos de meu pai, ou ter a certeza da morte deles e vingá-los caso pudesse.

A Cadeira de Prata.

Jill, uma amiga de Eustáquio da escola, tem problemas, e Eustáquio resolve alegrar a menina contando sobre suas aventuras em Nárnia, o que dá saudades nele e desperta a vontade de conhecer nela. Desejam tão ardentemente que conseguem encontrar Aslam, que repassa para a garota uma série de pista para a missão de encontrar o príncipe perdido Rilian, filho de Caspian X – o príncipe havia sumido há dez anos nos bosques de Nárnia. A memória de Jill não é das melhores, o que rende muitas aventuras aos dois.

“Chorar funciona mais ou menos enquanto dura. Porém, mais cedo ou mais tarde, é preciso parar de chorar e tomar uma decisão.”

A Última Batalha.

Aqui temos um velho macaco (Manhoso) e um burro (Confuso), que encontram uma pele de leão. Confuso “veste” a pele e começa a proclamar que é o porta-voz de Aslam. Manhoso faz uma aliança com os calormanos para conquistar Nárnia. Com a invasão iminente sobre o reino, o atual rei de Nárnia precisa da ajuda das crianças (com exceção de Susana, que acabou deixando as aventuras de Nárnia de lado), para desmascarar o impostor. E, aqui chegamos ao apocalipse…

“— Nosso mundo é Nárnia – soluçou Lúcia –. Como poderemos viver sem vê-lo?
— Você há de encontrar-me, querida – disse Aslam.
— Está também em nosso mundo? – perguntou Edmundo.
— Estou. Mas tenho outro nome. Têm de aprender a conhecer-me por esse nome. Foi por isso que os levei a Nárnia, para que, conhecendo-me um pouco, venham a conhecer-me melhor.”

As Crônicas de Nárnia foram originalmente escritas para crianças – por isso a linguagem simples e personagens cativantes, entre crianças e seres fantásticos. Mas, acho que se pretende mais que tudo ser lida por adultos, em função da quantidade de referências que são feitas. Lewis era grande amigo de Tolkien – que também escreveu para crianças. E foi por influência de Tolkien que Lewis abraçou o cristianismo – daí a quantidade de analogias encontradas.

Um fator interessante que encontramos no livro é a reafirmação de que tudo tem seu tempo. As crianças vêm e vão, e em algum momento terão de aceitar que seu tempo findou. Mas, mais que isso, entender que em algum momento poderão “experimentar” Aslam, acima de tudo – olha aí uma referência à espera do paraíso. Essa é uma ideia reconfortante, e é o que dá força para os garotos seguirem a vida.

Outras mensagens que vamos descobrindo ao longo das estórias é de ter esperança, de se superar, de perseguir seus objetivos, do perdão – eu fiquei bem condoída pelo Edmundo, que carregou uma culpa muito grande, mas não foi o único que errou. Mas, que o perdão, dos outros e de nós mesmos, é o tônus do personagem, não podemos negar.

Achei o Eustáquio bem irritante, só me diverti quando ele estava transformado em dragão – muito interessante a transformação dele enquanto pessoa, mas não me convenceu, já que não consigo acreditar muito nessa coisa de arrependimento rápido. Enfim, fica a semente da redenção…

Eu tenho minhas ressalvas quanto as As Crônicas de Nárnia… achei muitas descrições morosas demais, o que tornou a leitura maçante em alguns momentos. Mesmo tendo estórias pequenas, um excesso descritivo cansou – acima de tudo nos dois penúltimos livros. Mesmo Aslam sendo claramente uma figura emblemática, achei que era muito ausente em alguns momentos, e em outros, pouquíssimo questionado – afinal, muitas vezes nos vemos debatendo os caminhos que Deus nos aponta, ou não? E, por conta das descrições, sugiro ler em intervalos, não um seguido do outro, como fiz.

Quanto ao final… ele é bastante controverso. Já vi comentários enaltecendo, e outros que não gostaram nada. Quando eu li, estava no segundo grupo. Pensei que passei por tantas dificuldades ao longo de As Crônicas de Nárnia , pra terminar desse jeito? Hoje, refletindo a proposta do autor, entendo que faça mais sentido. É uma fantasia, mas é uma alegoria à bíblia… então temos o apocalipse. Por isso é válido ter em mente que é uma estória com um final feliz, mas muito diferente de qualquer final feliz que tenha lido até então…

E, para finalizar, temos um ponto também controverso: o racismo – referentes à Calormânia e seus habitantes. Os calormanos são descritos como pessoas de pele morena e com bastante barba, e a descrição do reino possui muitas semelhanças com os países árabes islâmicos, que cultuam Tash, apontado como um falso deus.

Muitos estereótipos na descrição desse povo estão presentes, como crueldade, cobiça, covardia, traição, preguiça, tendência à “indulgência bruta”, e escravocracia Entendo que, quando o livro foi escrito, essas questões poderiam ser corriqueiras mas, hoje, acho que vale a reflexão ao ler e interpretar tais pontos – ou seja, devemos entender o contexto de quando foi escrita, mas não podemos ignorar ou ser indiferentes à questão.

As Crônicas de Nárnia já foram adaptadas em peças teatrais e filmes, sendo O Leão, A Feiticeira e O Guarda-Roupa (2005), Príncipe Caspian (2008) e A Viagem do Peregrino da Alvorada (2010) as mais conhecidas.

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As crônicas de Nárnia

 

Título: As Crônicas de Nárnia
Autor: C. S Lewis
Ano: WMF Martins Fontes
Páginas: 752 páginas
Editora: Martins Fontes
Gênero: Ficção Científica Fantasia
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