A Trança é o livro de estreia da cineasta, roteirista e atriz Laetitia Colombani, que chega o Brasil numa edição belíssima da editora Intrínseca, um fenômeno de vendas e que já tem seus direitos adquiridos para adaptação no cinema.

Vamos conhecer a vida de 3 mulheres, que vivem bem distantes umas das outras – Índia, Itália e Canadá, com vidas bem diferentes, mas que tem a busca pela liberdade como ponto comum.

Primeiro conhecemos Smita, uma mulher indiana da casta dos dalits, também conhecidos como “shudras”, grupo formado por trabalhadores braçais, considerados pelos escritos bramânicos como “intocáveis” e impuros. A constituição indiana de 1947 proibiu o sistema de castas, mas persiste em muitas regiões da Índia. Smita é responsável por recolher as fezes da comunidade onde vive, e não recebe nada por isso, apenas algumas esmolas eventuais. Seu marido é responsável por caçar os ratos das plantações, e recebe como pagamento o roedor, que é utilizado nas refeições. Eles têm uma filha, e Smita sonha com um futuro diferente para ela.

Minha filha vai saber ler e escrever, diz para si mesma, e essa ideia a deixa feliz.”

A Trança – Laetitia Colombani

 

Na Itália, vamos conhecer Giulia, uma jovem de 20 anos que trabalha no ateliê da família, com a delicada função de trabalhar com cabelo humano, recolhendo e transformando em perucas, apliques, passando por um processo delicado de descolorir e desidratar as mechas. O pai está no comando do negócio, fundado pelo bisavô de Giulia, até que um acidente com o pai a coloca à frente do ateliê, uma vez que ela é a única das três filhas que se interessa pela empresa familiar.

Por último temos Sarah, uma advogada de sucesso, mãe de três filhos e divorciada duas vezes. Ela é uma workaholic, já que sabe que uma mulher, caso queira almejar sucesso, deve vestir uma máscara que não traga para o ambiente de trabalho qualquer situação de sua vida familiar. Não tirou licença maternidade, evita saídas para médicos e escola, e faz tempo que não tira férias. Mas o corpo cobra seu preço, e ela descobre que não dá para fugir de uma doença, que pode significar o fim de uma carreira que estava prestes a chegar ao topo!

“Quando se olhava no espelho, Sarah via uma mulher de quarenta anos para quem tudo tinha dado certo: tinha três filhos lindos, uma casa bem cuidada, em um bairro elegante, uma carreira invejada por muitos. (…) Sua ferida não se via, era invisível, quase indetectável por trás da maquiagem perfeita e dos terninhos de grife.”

A Trança – Laetitia Colombani

 

Os capítulos do livro são divididos entre as protagonistas, e vamos aos poucos conhecendo a luta dessas mulheres – que, em muitos casos, é muito semelhante às nossas próprias vidas. Os capítulos terminam em pontos críticos, que vão nos envolvendo mais e mais nessa trança composta pela história dessas três mulheres, e acabam por entrelaçar a vida das personagens, tão diferentes e tão distantes, mas com um toque de sutileza, mostrando como o que fazemos pode de alguma forma chegar a pessoas que nem sequer imaginamos.

A Trança traz uma discussão atual e necessária, que é o papel da mulher. Mesmo em sociedades tão diferentes, percebemos quanto as mulheres ainda têm de brigar com unhas e dentes para serem reconhecidas. Confesso que me condoí muito pela Smita, já que ela vive em um país que se relaciona com as mulheres de uma forma tão cruel. As mulheres não têm voz, não tem direito, não servem se não tem um homem ao lado. Se o homem comete um crime, as mulheres que o cercam – seja a esposa, irmãs, filhas, é que são castigadas. E o sonho de Smita é que a filha Lalita possa escapar desse destino imputado as mulheres, de geração em geração. Ela ainda se lembra da primeira vez que saiu com a mãe para aprender seu ofício, de recolher com as mãos desnudas as fezes das pessoas de castas superiores. Por conta do cheiro, fica muito tempo em apneia, mas vai fazer de tudo para salvar a filha desse destino.

“Ela não é esse cheiro, o cheiro da merda dos outros, não quer ser reduzida a isso.”

A Trança – Laetitia Colombani

 

A Trança nos traz ainda uma jovem leitora, que tem o pai como herói, e a empresa familiar como seu futuro. Ela conhece um rapaz, Kamaljit, que deixou a Cachemira por conta da violência, mas que sente na pele o racismo por parte dos italianos. Os livros os unem, e acabam não se largando, e ele se torna uma peça importante para o problema de Giulia.

“… Leitora insaciável, gosta de ambientes de salas imensas revestidas de livros, só perturbado pelo sussurrar das páginas. É como se fosse um lugar quase religioso, um recolhimento quase místico, que lhe agrada.”

Mas é em Sarah, a canadense, que me vi mais representada. Acho que a vida atribulada, e a necessidade de provar que ser mãe não a torna uma profissional pior, representou uma fase da minha vida de uma forma muito próxima, Quantas vezes não sai para tirar leite, aos prantos de saudades da minha bebezinha, e na saída, colocava minha máscara de eficiência! Os ambientes corporativos são despidos de solidariedade, e qualquer rachadura exposta é motivo para ser relegada, perder uma promoção, ser demitida. Sarah aprende a duras penas que a vida é mais que sua profissão!

 Laetitia Colombani

 

E quando essas histórias se entrelaçam… fui desconfiando de como isso se daria, mas achei perfeito. São três mulheres, que da mesma forma que uma trança, vão se entrelaçar e completar, mesmo sem nunca terem se visto. A jornada dessas mulheres reflete a resistência a uma sociedade injusta e, apesar da raiva que sentem por essa limitação imposta, se permitem ter esperança. Elas encontraram, cada uma a sua maneira, uma forma de mudar seu destino.

“A essas mulheres que amam, parem, esperam
Caem e levantam, mil vezes,
Que se vergam, mas não sucumbem.
Conheço suas lutas,
Partilho seu pranto e seu riso.
Cada uma delas é um pouco de mim.”

Uma história sobre a força feminina, numa edição caprichada, em capa dura, com pintura trilateral, ótima diagramação, numa narrativa fluida e cheia de significados!

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Editora  Intrínseca
Título:  A Trança
Autor:  Laetitia Colombani
Tradução: Dorothée de Bruchard
Ano: 2020
Páginas: 208
Editora:  Intrínseca
Gênero:  Ficção
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