“A Luz no Fim do Mundo” é um filme escrito, dirigido, roteirizado, produzido e estrelado pelo ganhador do Oscar Casey Affleck (pai). O filme também conta com Elisabeth Moss (mãe) e a estreante Anna Pniowsky (Rag – apelido carinhoso). Logo na primeira cena, vemos pai e filha deitados dentro de uma barraca de acampamento.

Apesar de parecer algo rotineiro, o pai parece não ter tanta criatividade em contar uma história para sua filha dormir. Ele é interpelado por Rag algumas vezes, pois a garota não quer ouvir uma história sobre ela mesma, ou uma história que já exista – no caso, A Arca de Noé.

Essa cena é longa e muito lenta. Talvez um pouco verborrágica. Contudo, acredito que me deixou preparada para o clima do longa. A cena inicial para mim ditou o ritmo do que seriam aproximadamente as próximas 2 horas em frente à tela.

A partir desse ponto, e dos desdobramentos da história contada a Rag, é que podemos perceber que pai e filha não estão apenas em um acampamento de fim de semana – aquilo não é para ser divertido. E que ela ter os cabelos cortados tão curtos não é uma opção fashionista. Apresento a vocês então, “A Luz no Fim do Mundo”, um drama distópico de ritmo paulatino. Pode ser que você tenha sua paciência provada. Mas, acredito também que se despretensiosamente você se deixar envolver com a história de Rag e seu pai, será recompensado com muitas cenas que nos colocam para refletir.

Então, vamos nos dando conta que há mais ou menos há 9 anos, houve uma pandemia, um tipo de peste, que eliminou praticamente toda população mundial feminina. Após essa devastação, o modelo conhecido de sociedade é modificado. E Rag, não sabemos o porquê, foi imune a essa doença, e hoje tem 11 anos. Juntamente com seu pai protetor e formador de caráter, Rag desbrava as florestas e locais isolados e abandonados, à periferia da cidade. Buscando sempre locais afastados e que não reconheçam Rag pelo que ela é, ou seja, uma mulher.

Eles estão vivendo em uma sociedade onde as mulheres ou não existem, ou são realmente muito escassas. Durante todo o longa não enxergamos sequer o vislumbre de outra figura feminina no “mundo atual”. Elisabeth Moss, que só aparece nos flashbacks de Casey Affleck, ou no momento que descobre estar contaminada pela praga, ou em algumas sequências, se despedindo do marido que acreditava não dar conta sem sua esposa. O filme nos ensina que agora, em um mundo sem mulheres, os papéis de gênero precisam ser rearranjados.

Uma vez que é necessário esse envolvimento emocional para você apreciar melhor o filme, você será brindado por um roteiro muito humano e ético. As pinceladas de Affleck a respeito do racismo, dos valores morais, e sobre vida e morte, por exemplo, são muito além de toques sutis. Penso que o ritmo lento da história é proposital, para que assim como Rag e seu pai, nós possamos ter tempo de pensar e refletir a respeito das cenas apresentadas.

Não sei se devido aos rumores a que Affleck foi exposto nos últimos anos, ou qual outro motivo o levou a escrever, roteirizar, dirigir, produzir e PRINCIPALMENTE estrelar essa história de lutas e desafios diários pela proteção da mulher da sua vida. Mas, o desejo é que as lições que foram estrategicamente passadas a nós, sejam algo real em sua própria vida. Um ode ao respeito e à humanidade. Que assim seja!

A performance dos dois atores principais foram extremamente notáveis e dignas de nota. Tanto o ator veterano quanto a estreante nos convence estar vivendo em um mundo pós-apocalíptico. É notável o entrosamento entre “pai” e “filha”. Eles realmente parecem viver um pelo outro. O amor é sentido, e o apego é motivo de tudo ser suportado até o fim chegar.

Rag é uma criança extremamente inteligente. Em meio sua inocência, a qual o pai tão bem protege, é pincelada por alguns assuntos mais “adultos” por ela amar ler, e sempre querer ter um livro em mãos. Seu poder em armazenar conteúdos e treinamentos dados por seu pai também é absurdamente notável. Se Rag não fosse uma criança tão especial e disposta, essa trilha que pai e filha perseguem não teria chegado tão longe.

O pai de Reg está a todo tempo observando de onde o mau pode vir. E sempre planejando “lugares secretos” e esquemas de fuga.

Em suma, o filme não é aquele tipo de história que anseia por uma resolução. Por um ponto final. O filme não é sobre homens, sua raiva e suas necessidades. A Luz no Fim do Mundo” é sobre Rag. Sobre seu lugar no mundo e sobre o que ela pode esperar desse mundo.

Rag não teve uma infância regular. Ela busca conhecimento e divertimento em seus livros.

“A Luz no Fim do Mundo” é um drama explícito de uma jornada que não sabemos como vai acabar. O que outros adultos fariam ao descobrir que Rag – que seu pai sempre apresenta aos outros como Alex, seu filho – é uma menina? Como será quando Rag se tornar uma mulher, pois seu corpo irá se transformar? A humanidade vai se findar quando todos os homens tiverem “usado e abusado” das mulheres restantes? Nascerão outras mulheres? Elas serão imunes à praga? Bebês estão sendo produzidos em laboratório??? São diversas perguntas que pulularam minha mente nos momentos pós-créditos.

Enfim, eu gosto é assim… Que me faça pensar como se a situação estivesse acontecendo aqui e agora. Recomendo que você vá com o coração preparado e livre de amarras.

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Data de lançamento: 17 de outubro de 2019
Duração: 1h 59min
Direção: Casey Affleck
Elenco: Casey Affleck, Elisabeth Moss, Anna Pniowsky
Gêneros: Drama, Distopia, Ficção científica
Nacionalidade: EUA
Distribuidor brasileiro: Imagem Filmes