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A INTÉRPRETE – ANNETTE HESS | RESENHA

27 janeiro, 2020 por

LIVRO A Intérprete

A Intérprete é um lançamento de 2019 da Editora Arqueiro, livro de estreia da autora alemã e dramaturga Annette Hess, que tem como pano de fundo a segunda guerra mundial. É uma mistura de romance histórico com drama passado em 1963, e já é considerado um dos grandes lançamentos da literatura contemporânea alemã, tendo os direitos de publicação vendidos para 21 países.

A protagonista Eva Bruhns mora em Frankfurt com os pais, que são proprietários de um restaurante – Casa Alemã, juntamente com uma irmã enfermeira e o irmão caçula que vive brincando com seus soldadinhos e o cachorro da família. Além de ajudar os pais, Eva trabalha como tradutora e intérprete. Ela namora Jűrguen, um rapaz circunspecto, herdeiro de uma grande empresa de venda de itens para o lar. Eva aguarda ansiosa o pedido de casamento.

Em 1963, a Alemanha foi reconstruída após a segunda guerra mundial, e para muitos alemães essas são lembranças que devem ficar no passado. Mas, um dia, ela é chamada para traduzir um documento em polonês e, como o intérprete oficial informa que não poderá comparecer, ela é convidada para trabalhar com os depoimentos de testemunhas polonesas no julgamento do campo de concentração de Auschwitz.

A opinião pública é contrária a esse julgamento, e não entendem como recursos preciosos serão perdidos para julgar atos cometidos há tanto tempo.

“Os 21 réus eram pais de família inofensivos, avôs e cidadãos honrados e trabalhadores, que já haviam passado por todo o processo de desnazificação, e nada havia sido encontrado contra eles. O dinheiro dos contribuintes deveria ser investido de forma mais inteligente.”

A Intérprete

À princípio, a própria Eva acha o julgamento desnecessário, até ouvir os primeiros depoimentos. Sente estranheza no comportamento dos pais, da irmã, e até mesmo do noivo, que vai além de demonstrar insatisfação com o novo trabalho da noiva, já que ele espera uma esposa recatada, submissa e do lar. Ao mesmo tempo, os colegas do julgamento – acima de tudo o advogado David Miller, aparentam não confiar na capacidade da jovem intérprete.

Mas, apesar da opinião pública contrária ao julgamento, a descrença de seus empregadores, a resistência de sua família e a de seu noivo, Eva vai percebendo que estava exatamente onde deveria estar. Ela só não esperaria esbarrar em segredos obscuros, e em descobrir a maldade na natureza humana.

“Como alguém consegue suportar a responsabilidade pela morte de milhares de pessoas?”

Eva é uma personagem muito interessante. O amadurecimento, as escolhas e as decisões pelos quais ela perpassa são dolorosos. Mas ela não se esquiva. Por isso, temos aqui uma obra que também traz a consolidação da autoestima. Quando começa a refletir sobre Auschwitz, começa a questionar o comportamento de uma nação, até chegar à participação da própria família nesses eventos.

Apesar do enfoque ser quase que completamente em Eva, temos personagens secundários com seus próprios tramas pessoais. O que fui percebendo ao longo da leitura é que A Intérprete se trata na verdade, de um drama familiar permeando o julgamento dos líderes da chacina de Auschwitz. Praticamente todos os familiares de Eva tem problemas, alguns bastante sérios. E, grande parte desses problemas acabam sendo decorrentes da guerra que a família insiste em ignorar.

“Pode-se saber tudo sobre Auschwitz, mas estar aqui é bem diferente”

Achei a irmã, Annegret, especialmente perturbadora. E perturbada.

“… O bom senso diz que essas pessoas estão mentindo descaradamente. Aquele era um campo de trabalhos forçados (…) Eram criminosos, claro que não seriam tratados com luvas de pelica. Mas os números citados são loucura.”

A intérprete é uma obra necessária. Depois de passado tanto tempo, os horrores cometidos em Auschwitz podem começar a ter os seus contornos esmaecidos, como uma fotografia que vai envelhecendo. Assim, as novas gerações vão se perguntar, da mesma forma que Eva no início da estória, que talvez tenha sido um exagero. Que os horrores não podem ser tão grandes assim.

Entrei na leitura esperando alguma coisa mais leve, mas não dá para ser leve com isso. Foi interessante perceber por que os alemães daquela época temiam o julgamento. Porque é doloroso descobrir que deixaram acontecer. Foi uma onda leve, que foi levando as pessoas, e elas se deixaram levar. Ao mesmo tempo, dá para entender como os alemães de hoje insistem em relembrar. Porque não podemos esquecer. Não podemos fingir que foi só mais uma atrocidade cometida ao longo da história humana – foi muito maior. É preciso relembrar para que não aconteça de novo. Em tempos de intolerância em todos os aspectos, não podemos admitir nenhuma menção a esse momento como se fosse inocente. Não é!

“As pessoas que estiveram do lado de fora da cerca jamais compreenderiam o que significara ter sido prisioneiro naquele campo”

A Intérprete

Sendo assim, recomendo a leitura de A intérprete para aqueles que gostam de estórias tendo a guerra como pano de fundo, para aqueles que, como eu, ainda não lera nenhuma obra literária relativa a esse fato histórico e a todos aqueles que entendem a importância de reviver um momento que não queremos que se repita.

Enfim, talvez por a autora ser roteirista, conseguiu trazer uma leitura rápida, que se dividiu em 4 partes, mas com intervalos pequenos entre as passagens, e que li em dois dias – levei tanto tempo porque em uma ou outra passagem, por ter uma descrição bastante gráfica dos horrores cometidos, parei para chorar.

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A Intérprete

Título: A Intérprete
Autor: Annette Hess
Ano: 2019
Nota: 4/5
Páginas: 272
Editora: Arqueiro
Gênero: Ficção, Literatura Estrangeira, Romance
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