Kristin Hannah é uma autora de sucessos como Tempo de regresso, O Rouxinol e As coisas que fazemos por amor, tendo vendido mais de 15 milhões de exemplares no mundo. ‘A grande solidão’ foi publicada no Brasil pela editora Arqueiro em 2018, tendo sido eleito pelo Goodreads Choice Awards como melhor livro de ficção histórica.

A Guerra do Vietnã ainda não havia terminado, mas o soldado Ernt Allbright volta para casa, com profundas marcas e transformado. Mecânico, não consegue se estabelecer em nenhum lugar, sendo demitido de um emprego atrás do outro. Sua esposa, Cora, e a filha, Lenora – de apenas 13 anos, permanecem ao lado dele, na esperança de que se cure das feridas.

Então uma nova oportunidade surge quando ele herda uma propriedade de um amigo que pereceu na guerra. A propriedade fica em Kaneq, no Alasca. Claro que ele fica eufórico, tendo certeza de que lá estará recuperado. Resta a mãe e filha seguirem Ernt. Para duas estadunidenses acostumadas com as regalias da urbanização, é um choque chegar ao Alasca, numa Kombi e quase sem dinheiro. Mas os habitantes do local são muito receptivos, e logo se organizam para ajudar os novos moradores. Entre elas, Marge, dona de um comércio que se torna uma grande amiga.

“O Alasca não é sobre quem vocês eram quando tomaram esse rumo. É sobre quem você se torna. Vocês estão na natureza selvagem. Isto aqui não é nenhuma fábula ou contos de fadas. É real. É duro. O inverno vai chegar em breve e, podem acreditar, não é como nenhum inverno que vocês já tenham experimentado. Ele destrói os mais fracos, e rápido.”

A GRANDE SOLIDÃO - KRISTIN HANNAH

Durante o verão, a família trabalha na reforma da cabana, e preparam mantimentos para o duro inverno: compotas, peixes e caça defumados, legumes em conservas.

Leni consegue vaga na única escola da localidade, onde se torna amiga da única criança da mesma idade: Mathew Walker – o pai dele tem uma propriedade próxima aos Allbright, e sua família praticamente fundou o local, já que os avós foram pioneiros nessa região. E os dois compartilham uma paixão: os livros…

Mesmo que acreditassem estar preparados, quando o inverno chega à natureza mostra o seu pior. Por outro lado, mais sombria era a escuridão que se apossa de Ernt: ele volta a ter pesadelos, e sua violência é potencializada. Cora aprendeu a se diminuir e tentar ficar transparente nos momentos de fúria, já que acredita que é sua obrigação estar ao lado do marido, e espera que o doce homem anterior à guerra volte algum dia. Leni sempre esteve ao lado da mãe, e começa a se sentir desconfortável com toda a mudança do pai, mas não quer sair de perto dela… e acaba sendo mais uma vítima de toda a violência doméstica, já que qualquer ato de rebeldia é descontado na mãe!

“Livros são os marcos de minha vida. Algumas pessoas têm fotos de família ou filmes caseiros para registrar seu passado. Eu tenho livros. Personagens. Desde que me lembro os livros foram meu refúgio.”

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E assim, em meio a paisagem linda e crua do Alaska, mãe e filha vão se apoiando, na esperança de passar por mais um inverno rigoroso!

A história de ‘A grande solidão’ é desenvolvida em uma narrativa em terceira pessoa, que acompanha principalmente Lenora. Como ela é justamente o elo mais frágil, foi extremamente doloroso para mim, enquanto mãe, encontrar uma garotinha tão sofrida e tão impotente. A Grande solidão se inicia em 1974, e finaliza em 1986, e temos todas as nuances do crescimento de Lenora. Ela é mais madura que a mãe, já que aprendeu a lidar com o pai muito nova, e percebe que a mãe se sente prisioneira numa relação que já não é de amor, não mais. Tenta abrir os olhos dela, mas se vê presa num círculo vicioso de culpa e impotência, e não consegue romper esse ciclo de violência.

Mas Lenora cresce, e a dor do primeiro amor é amplificada, já que ela acaba acreditando que, por ter uma família tóxica, não conseguirá formar e nem almejar laços afetivos verdadeiros. A mãe percebe os sentimentos da filha, e a alerta todo o tempo sobre como não é possível amar mais alguém além do pai. Pode ser perigoso…

Ah, como odiei Ernt! Entendo que a guerra não termina para quem esteve lá, e era uma época que não se compreendia bem estresses pós traumáticos. Mas a sensação que tive é que a violência dele só se potencializou, já era intrínseco de Ernt, que, como se não bastasse, se afundava em teorias de conspiração. Guerra nuclear, fome, uma pandemia… tá, ele acertou aqui, mas se isolar do mundo e querer levantar muros? Como se não bastasse, ele encontra no pai do amigo morto alguém que ecoa seus temores, e a loucura, aliada à bebida, coloca todos pisando em ovos.

“A mãe nunca deixaria o pai, e Leni nunca deixaria a mãe. E o pai nunca as deixaria partir. Nesse nó terrível e tóxico que era sua família, não havia escapatória para nenhum deles.”

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Outros personagens foram uma força da natureza… Marge Gorda foi daquelas amigas que a gente quer, sempre pronta, atenta, e disposta a ajudar as duas no que fosse necessário. Tom Walker também está sempre presente, quando necessário, cuidando dos vizinhos e de olho nas transformações do mundo. Thelma, cujo irmão foi amigo de Ernt no Vietnã, se torna uma boa amiga para Cora. Foi bem gostoso encontrar mulheres que se dão as mãos, um exemplo de sororidade que nem sempre encontramos nas histórias. São mulheres que se apoiam, se solidarizam, se respeitam!

E o Alasca… não é por menos que a autora foi tão elogiada. O Alasca deixe de ser uma paisagem e se torna um personagem também. Toda a transformação da última fronteira, que acaba atraindo turistas mais e mais, mas nem assim deixa de ser inóspito e avassalador! A autora morou lá, e por isso conseguiu transmitir com tanta perfeição a paisagem e o clima do Alasca.

“O Alasca não atrai muitas pessoas; a maioria é dócil demais para aguentar a vida por aqui. Mas, quando ele fisga você, se crava fundo e se prende, e você se torna dele. Selvagem. Um amante de beleza cruel e isolamento esplêndido.”

‘A grande solidão’ me fez rir e chorar, odiar e amar, me deixou com o gosto do Alasca, a vontade de conhecer a aurora boreal, de pescar salmão e me encantar por uma noite tão azul… mas aviso que tem gatilhos, e parece que toda a tristeza nunca vai passar. Chegou um momento que pensei em nunca mais ler nada da autora, tamanha a crueza da violência que Lenora vivenciou toda a vida. Mas é uma pauta atual, que, mesmo que mulheres sejam diuturnamente espancadas, quebradas, mortas, o sistema – e a sociedade, ainda podem lhe virar a cara. Mas há esperança, e foi um final agridoce, que quase moeu meu coração, mas que me deixou muitos ensinamentos e um quentinho no coração. É possível quebrar esse ciclo!

A história de A Grande solidão é comovente, atual, rápido de ler – porque a gente quer saber mais e mais, com uma diagramação e tradução impecáveis!

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Kristin Hannah Título:  A Grande solidão
Tradução: Edmundo Barreiros
Autor:  Kristin Hannah
Ano: 2018
Páginas: 400
Editora:  Arqueiro
Gênero:  Ficção histórica
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