A pessoa aqui é doida por thrillers, e não pude deixar de conferir A garota desaparecida , que é o oitavo livro da série da detetive D. D. Warren, da autora Lisa Gardner, e que foi publicado no início do mês de março pela Editora Gutenberg.

Warren é uma detetive sargento da polícia de Boston, que está trabalhando em restrição por ainda se encontrar em recuperação de um acidente em cena de crime. Essa série não conta com todos os livros traduzidos para o português, e sequer com a série publicada por uma mesma editora. Mas, mesmo sem conhecer a detetive os demais personagens recorrentes, eu consegui me sentir bastante envolvida com a história e com o desenvolvimento da narrativa.

“A dor é uma sinfonia. Uma canção de  variadas intensidades e muitas, muitas notas. Eu aprendi a tocá-las. Não era mais uma vítima indefesa em um mar de sofrimento, mas um gênio insano da orquestra dirigindo a música da própria vida”.

A garota desaparecida de Lisa Garden é o terceiro livro da autora publicada no Brasil pela editora, um Thriller policial de 354 página.
Em A Garota Desaparecida, Gardner nos apresenta uma moça descolada, curtindo uma balada e bebidas à vontade. Não sabemos ainda quem é Florence Dane, ou o que aconteceu com ela em um passado não muito distante – há 7 anos. Mas logo somos informados que ela passou mais de um ano sequestrada – 472 dias desaparecida, em poder de um homem que abusava constantemente dela tanto de forma física, quanto psicológica.

“Você está sozinha na caixa. É assustador. É esmagador. Horrível. Principalmente porque você ainda não entende o quanto tem motivo para sentir medo”.

A narração é feita de diversas formas. Em um momento temos Flora nos falando sobre seus dias de tormentas vividos em cativeiro. O que sentia, como sofria, as privações que lhe eram imputadas, e a incerteza de que um dia fosse sair dessa situação. Somos levados muitas vezes entre os capítulos do momento presente, para essas informações que são essenciais para a construção da trama. Flora também narra momentos do agora, de seus pensamentos um tanto obsessivos a respeito de outras vítimas de sequestros e abusos, e um pouco sobre seu sentimento de “sentinela” ou de “vingadora”.
Também temos narrações na terceira pessoa da então já conhecida detetive D. D. Warren (para aqueles que já leram algum dos 7 livros anteriores). Ela nos fala a respeito de sua situação no trabalho, com sua família, e sobre sua forma de agir em campo, mesmo estando desarmada e afastada desse tipo de serviço por motivo de uma lesão no braço. Warren não se encantou com Flora no momento que se conheceram.

“Não tem muito o que fazer, dia após dia trancada em um baú do tamanho de um caixão. De fato, só tem uma coisa que vale a pena imaginar, perseguir, contemplar minuto após minuto, terrível, hora após hora. Um pensamento que a mantém seguindo adiante. Um foco que lhe dá força. Você encontrará esse foco. Você irá aperfeiçoá-lo. E então, se for minimamente parecida comigo, nunca o abandonará”.

Acontece que entre um “incidente” onde um jovem acabou morto pelas mãos de Flora, o caminho das duas se cruzam. E Warren fica de “orelha em pé” ao perceber o relacionamento de Flora com um psicólogo do FBI – que é especialista em vítimas –, que logo vem até a cena do crime a seu pedido. Ele a leva pra casa, onde a moça acaba por ter um encontro um tanto quanto desajeitado com sua mãe (que não mora em Boston, mas no Maine).

Depois que a mãe de Flora parte de seu apartamento, a garota toma banho e resolve dormir um pouco para descansar. E à partir desse momento os mistérios retornam à superfície de tudo aquilo que envolve a garota. Ela simplesmente desaparece do apartamento. A polícia investiga, Warren se joga de cabeça no caso, e no decorrer das intervenções policiais, é descoberta ligações entre o atual sumiço de Flora, com outras garotas que conforme as investigações mostram, também estão desaparecidas. 

 “Aí você vai ouvir sons estranhos, tristes e patéticos, e vai entender a caixa, chegando à conclusão de que ei, estou presa em uma caixa de madeira escura – quando perceber esses sons vêm de você”.

As torturas psicológicas retornam a todo vapor pra cima de Flora, porém ela se preparou muito bem para qualquer revés. Está sempre conversando consigo, buscando convencer-se de que está bem, de que está em condições de lutar, de sobreviver. Ela nos dias atuais é alguém com técnicas de defesas e de sobrevivência. E tudo isso faz com que ela não desista nunca, mesmo não sabendo onde está ou com quem está lidando.

D. D. Warren, mesmo estando em regime restrito de trabalho, percebe que a situação se complicou e é mais séria do que imaginavam. E assim, conjuntamente com o Dr. Samuel Keynes (o especialista em vítimas), D. D. está decidida a descobrir o que aconteceu com Flora e resolver de uma vez por todas esse caso.

Ao mesmo tempo que a polícia trabalha por um lado, Flora – em seu “novo” cativeiro – trabalha de outro lado. Em certo momento da história os acontecimentos começam a correr de forma frenética. Aquela leitura que nos deixa respirando de forma ansiosa… pois a qualquer momento o pior pode acontecer. 

“Veja, meu sequestrador também tinha uma missão, que era remover todos os fiapos de humanidade de mim. Me esvaziar, me quebrar, me transformar em um absoluto nada”.

{ #RESENHA } A GAROTA DESAPARECIDA - LISA GARDNER

Flora realmente foi quebrada, estraçalhada, humilhada e esvaziada de sua humanidade. Seu primeiro sequestrador, mesmo tendo sido executado quando a polícia os encontrou, conseguiu o que queria. Ele perturba a mente de Flora a todo tempo. Ele incomoda a garota, sussurra em seus ouvidos e a lembra a todo instante de quem ela se tornou em 472 dias.

Eu me senti bastante incomodada com as cenas de brutalidade, violência e abuso (sexual e psicológica). A tortura que Flora enfrenta com seu primeiro sequestrador – que é ficar presa em uma caixa de madeira com as medidas de um caixão, por horas, por dias a fio – me deu uma agonia terrível. Foi bem claustrofóbico para mim, ler e viver um pouco dessas cenas. Ou seja, a leitura não é maquilada. A autora é bem crua, pelo menos em A garota desaparecida que é minha primeira experiência com Gardner.

Para fãs do gênero, afirmo que a leitura é certeira. A autora me impactou e me ganhou ao mesmo tempo. Ela não nos poupa de forma alguma… ela entrega aquilo que pensou, aquilo que imaginou para a história e o leitor que lide com isso de alguma forma. Ponto positivo para isso!

Sobre a edição, adorei a capa. O verde chamativo do título chama muito a atenção, deixando ali em segundo plano a madeira (que alude à caixa onde Flora passou muitos dias confinada e desconstruída), com um olhar um tanto ressabiado olhando por uma tábua partida. Adorei! A diagramação é simples, e minha edição veio com algumas boas quantidades de páginas borradas – não sei se fui a única premiada –, mas dando uma espremidinha nas vistas, não prejudicou o conteúdo do texto.

Lisa Gardner é uma autora que está sendo recentemente publicada pela editora Gutenberg, tendo somente os livros Bem Atrás de Você e A Garota Desaparecida no catálogo. Ambos fazem partes de séries diferentes, tendo livros anteriores com personagens recorrentes.

“Não sei como voltar o relógio e desfazer o que aconteceu. Não consigo sentir o que não consigo sentir. Não posso ser o que não posso ser. Mas dói, esse olhar no rosto dela, essa preocupação em seus olhos. Me mata saber que a pessoa que sou agora machuca a mãe que nunca fez nada além de me amar”.

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Título: A Garota Desaparecida (Detetive D.D. Warren #8) 
Autora: Lisa Gardner 
Ano: 2018 
Páginas: 354 
Editora: Gutenberg 
Gênero: Thriller, Crime, Ficção, Literatura Estrangeira, Suspense e Mistério 
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