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29 junho 2018

{ #RESENHA } A MENINA SUBMERSA : MEMÓRIAS - CAITLÍN R. KIERNAN

RESENHA DE LIVRO : A MENINA SUBMERSA : MEMÓRIAS - CAITLÍN R. KIERNAN
A Menina Submersa: Memórias | Autora: Caitlín R. Kiernan| Ano: 2015 | Páginas: 320 | Editora: DarkSide Books | Tradutoras: Ana Resende e Carolina Caires | Gênero: Fantasia, Ficção Científica, Terror | Adicione a sua lista do Skoob  | Onde comprar: Amazon

India Morgan PhelpsImp para seus amigos – é esquizofrênica. A verdade é que essa garota não pode confiar em sua própria mente. Está constantemente lutando com suas percepções da realidade, e tem certeza de que suas memórias a traíram de alguma forma, forçando-a a questionar sua própria identidade. E é assim que Caitlín nos conta essa história, através de uma narração não linear, porém, instigante e arrebatadora.

A autora consegue delinear toda obsessão de sua personagem, de maneira a convencer o leitor que cada trecho descrito é real e de fato aconteceu, ou mesmo que cada trecho desenvolvido é uma ilusão, um devaneio... Pois, desde o início sabemos que Imp é uma narradora não confiável (não é culpa dela), e em meio suas divagações, contos escritos, poesias rabiscadas, descrições de quadros e muitas referências culturais, podemos perceber que Caitlín inventou alguma coisa totalmente inovadora e imersiva dentro da fantasia e do thriller psicológico, mesclando o mundo do horror.

RESENHA: A MENINA SUBMERSA : MEMÓRIAS - CAITLÍN R. KIERNAN

“Mas agora que criei meu começo, por mais arbitrário que seja, ele parece tão certo quanto eu acho que qualquer começo jamais será.”

Imp declara que ‘tecemos ficções necessárias, e às vezes elas nos tecem’, e é desta forma que conhecemos os detalhes dessa história que envolve uma garota que herdou um distúrbio psíquico de sua mãe, de sua avó e de outras familiares distantes. Não sabemos se Imp está tecendo a história, ou se a história é quem tece Imp. Ela é esquizofrênica, e esse distúrbio faz com que a pessoa perca a noção da realidade. Como sintomas, a pessoa pode apresentar delírios, alucinações, fala e escrita desorganizada, comportamento desorganizado e/ou catatônico, e demais sintomas negativos (diminuição na habilidade de expressar-se emocionalmente, falta de iniciativa, etc.).

E é por isso que Imp se declara não confiável desde o início de tudo, onde cabe ao leitor acreditar ou não, embarcar na história ou acreditar que é tudo delírio de nossa narradora. Pode ser que ela realmente não seja uma fonte segura para narração dos fatos, mas mesmo assim, se torna a única fonte que temos.


Então, nesse primeiro momento Imp nos deixa a par dos acontecimentos com sua família, onde tanto sua mãe (Rosemary Anne), quanto sua avó (Caroline) cometeu suicídio em decorrência do sofrimento causado pela esquizofrenia. Ela entende e perdoa sua família, mesmo tendo ficado sozinha em seu cantinho lá em Rhode Island. Nunca conheceu seu pai, e quando criança, Imp construía continuamente uma checklist de maneiras bizarras e doloridas as quais ela desejava que seu pai viesse a falecer. Vive em seu apartamento alugado, onde escreve, lê e pinta quadros (sua maior paixão). Rosemary Anne levava sua filha a visitas a museus, e em um desses passeios Imp conheceu o quadro 'A Menina Submersa', de Philip George Saltonstall e cria toda uma obsessão a partir desse encontro.

“A normalidade é um comprimido amargo do qual reclamamos.”

A vida de Imp começa a mudar quando andando pela calçada, ela encontra uns itens abandonados e começa a procurar algum livro ou disco que lhe agrade. Mas, Abalyn é dona desses objetos e não fica feliz com essa liberdade de nossa narradora em mexer em suas coisas espalhadas. Imp acaba descobrindo que Abalyn foi despejada pela antiga namorada, e no fim da conversa, Abalyn está indo morar um tempo na casa de Imp, que realmente tem espaço de sobra e disposição para essa experiência. O trabalho de Abalyn é resenhar jogos de vídeo game, e por isso está sempre em casa. Ela é uma transexual que perdeu o contato com sua família por falta de aceitação. Ela e Imp engatam em um romance, e se tornam namoradas.

Numa noite qualquer, dirigindo sem destino certo, de madrugada, e deixando sua namorada em casa jogando (era seu trabalho, afinal), Imp vê uma garota na beira da Rodovia 122. Era como se antes não houvesse nada ali, e de repente, ali estava a moça. Nua, super misteriosa, e muda, ela simplesmente estava ali fitando a escuridão do rio Blackstone. Tudo que cerca esse acontecimento é muito sobrenatural. Nossa não confiável narradora para seu carro e vai até a garota, a protege e leva-a até ao automóvel, seu Honda. Ao chegar a sua casa com ela a reação de Abalyn não foi das melhores, afinal de contas, essa garota poderia representar qualquer tipo de perigo para elas.

EDITORA DARKSIDE BOOKS

“Sempre há um canto de sereia que te seduz para o naufrágio.”

Descobrimos que essa moça é Eva, e Eva é definitivamente a alma desse livro. Imp às vezes acredita ser Eva uma sereia. Ou um lobo que se transforma em mulher. Ela também pode ser o fantasma de uma mulher afogada – uma menina submersa. Às vezes ela acredita que Eva nem exista e é fruto de sua imaginação. Ou Eva também pode ser apenas uma garota com um passado, como qualquer outra pessoa. O leitor também fica confuso com todas essas conjecturas. Porém, e ainda bem, temos Abalyn para dar um pouco de crédito a alguns trechos. E Eva bem poderia encaixar como uma metáfora perfeita para esquizofrenia de Imp.

O recurso de fluxo de consciência utilizado por Kiernan faz com que o leitor experiencie em sua própria pele quão confusa e incerta Imp se sente, e como sua vida passa a ser regida por sentimentos e sensações que ela não pode se quer garantir a si própria que são verdadeiros. Mesmo fazendo acompanhamento psiquiátrico regular e fazendo uso de medicação controlada, Imp se vê derrapando nas verdades que construiu para si.

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo mais antigo e mais forte de medo é o temor do desconhecido.”


Esse livro é repleto de referências musicais, literárias, e culturais de um modo em geral. Existe uma playlist no Spotify que torna a experiência ainda mais profunda. Durante a leitura é muito gostoso, e quase necessário, ir ressaltando e anotando essas referências, ou ir fazendo pequenas pesquisas para melhor adentrarmos a realidade de Imp. Mas, com a devida calma, uma vez que temos citados na história, por exemplo, certa música que pessoas escutaram para suicidar, ou a história daquela famosa floresta japonesa (Aokigahara) aonde milhares de pessoas vão para tirar sua vida. Parcimônia, cautela e ponderação ao lidar com essas informações!

A leitura é extremamente marcante e sensível, e não pense estar perdido na história sem saber para onde Imp está encaminhando o enredo de sua vida. Simplesmente sinta como ela sinta, e reflita como pode ser o dia-a-dia de alguém com um diagnóstico desses que é praticamente uma sentença. Em um nível mais estrito e pessoal, confesso que senti muita empatia pela narradora, por suas crises e dúvidas, pelos seus medos e sua falta de certeza.

 ''Não vejo muita resolução no mundo; nascemos, vivemos e morremos, e no fim disso há somente uma confusão feia de negócios inacabados. ''

Caitlín R. Kiernan nasceu em Dublin, mas vive nos Estados Unidos desde pequena. Tem 54 anos, é autora de livros de ficção científica e fantasia dark, e é paleontóloga. Escreveu dez romances, dezenas de histórias em quadrinhos e mais de 200 contos e novelas. O livro A Menina Submersa: Memórias, conquistou o prêmio Bram Stoker e James Tiptree, Jr. (destinado a obras de ficção científica ou de fantasia que ampliam e exploram a compreensão de gênero).

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15 comentários:

  1. Estou adorando as resenhas que tem feito para o blog, os gêneros que aprecio demais! Já adicionei esse a lista de desejados, estou bem parada com leituras já faz um bom tempo, precisando voltar e curti demais esse livro, a DarkSide é só amor! Quero conhecer mais sobre essa personagem, quero ver é sentir como ela, a leitura parece ser maravilhosa e amei o trabalho da Albayn, quisera eu um assim, haha (Meu lado gamer falando, hehe)

    https://twitter.com/CaarolForbes/status/1012888740086407168?ref_src=twcamp%5Ecopy%7Ctwsrc%5Eandroid%7Ctwgr%5Ecopy%7Ctwcon%5E7090%7Ctwterm%5E3

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    1. Oi xará! Que legal que tem gostado das minhas resenhas. Acho que já deu para perceber qual é o tipo de leitura preferida aqui, né? Eu tenho uma queda enorme para literatura que aborda (usa e abusa) Saúde Mental. Meu lado psicóloga fica em êxtase. E essa autora foi muito feliz no enredo do livro. Você praticamente se sente uma pessoa com esquizofrenia.
      Sem dizer que ele é lindo, e que sim, a DarkSide está sempre arrasando!! Espero que você seja das pessoas que gostem da história. Esse é um dos livros que mais divide opiniões que eu já vi (falando dos livros da editora).
      Abraços e até a próxima

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  2. É preciso antes de tecer algum comentário sobre a maravilhosa resenha, falar mais uma vez do trabalho impecável da DarkSide com seus livros! Por mais que a gente olhe seus livros, ainda assim, a gente fica meio de boca aberta em frente a tela quando vê um livro assim, tão lindo!
    Este livro está na minha lista de desejados faz tempo e não vejo a hora de poder conferir ele. Loucura? Realidade?
    Até que ponto a personagem criou todo um cenário ou até onde ela está dentro deste cenário.
    Pelo que entendi acima, é como se jogar na mente da personagem e dali, ir criando ou tirando suas próprias conclusões!!!
    Beijo

    https://twitter.com/AngelaGabriel1/status/1013026350591102976

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  3. Você escreve muito bem, amei cada passagem... cheguei a relembrar claramente vários momentos do livro. Mas confesso que em muitos momentos me perguntei se também tenho algum distúrbio por apresentar comportamentos semelhantes ao da protagonista, minha certeza é que com distúrbios ou não cada um tem suas particularidades.

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    1. Oi Hilsa, que bom te ler aqui nos comentários! Bom, você é uma das pessoas que leu esse livro e que entrou de cabeça na história. Como foi bom termos criado aquele grupo e finalmente eu ter conseguido tirar ele da minha estante. Eu adorei a experiência e foi muito bom ir conversando com vocês. Que venham mais experiências! Tenho outros da Dark parados aqui esperando um grupo maneiro. hehehehee

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  4. Da DarkSide não tenho muito a comentar,aja a vista o pouco contato que tive até hoje com as obras da mesma,no entanto,conhecendo algialg e cada vez mais interessando por estes temas que, mesmo que muitas ,ficco fi,mas tão reais,como nós identificamos com estes temas,como fatores, comportamentos tao presentes no nosso dia a dia! Na minha lista,Carol,a resenha esta maravilhosa,me faz desejar a leitura,como outras que ja fiz mediante suas indicações.👌

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    1. Mari, querida... que bom te ver por aqui. Livros com temas psicológicos chamam tanto minha atenção, e fico feliz que estejam alcançando cada vez mais uma gama maior de leitores. Esse livro não é nada fácil de ler, sabe... Mas, acredito que se nos colocarmos mais no lugar da Imp e tentar sentir a dificuldade que ela tem pra saber o que é real e o que não é, conseguimos nos apaixonar pela história. Beijocas e vamos aumentando juntas aí nossa lista de livros a ler. hehehee

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  5. Parabéns! Maravilhosa resenha.

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  6. Caroool, agora eu te dei muita moral. Eu vou ser muito sincera em dizer que tive uma enorme dificuldade em entender e entrar nessa leitura. O livro exigiu bastante de mim e ao final questionei muito se compreendi todos os aspectos. Ele é decididamente muito denso.
    Eu nunca conseguiria resenhá-lo e te dou os parabéns por ter feito de uma forma tão clara. Bjos

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    1. Karina, eu falei com a Leh quando entreguei a resenha que "Meu Deus, que resenha difícil de fazer"!!! hahahaa Mas, compreendo completamente como as opiniões se dividem quando comentam sobre ele. Acontece que, além de ele não ser um livro fácil, não linear e tal, ainda tem muito do momento. Uma colega de leitura em grupo que comentou aqui pra cima até disse quando estávamos debatendo como o livro estava impressionando ela, por ter alguns comportamentos parecidos com a Imp. Ou seja, o negócio é tenso mesmo! hahahaha
      Que bom que você gostou e achou que me saí bem... fico feliz. Ainda estou dando os primeiros passos nessa vida de resenhar. Grande beijo.

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  7. Esse é meu livro favorito do ano, me apeguei na imp e na abalyn de um jeito que queria demais um livro dois! Não é o favorito de muita gente então é sempre muito gostoso encontrar uma resenha dele! Ficou incrível demais, parabéns ❤

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    1. Anna, como é legal encontrar alguém que tenha amores por ele! Como você disse, ele não é o preferido de muitos... Mas, ele teve um lugar especial no meu coração esse ano. Obrigada pelo carinho. Até a próxima.

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  8. Ganhei esse livro num sorteio que por sorte vinha namorando ele a horas, o que é essa capa?? E o efeito pink?? uaauuu.. aí veio a grande decepção quando li comentários negativos dele. Disseram que o livro era fraco e sem nexo, cansativo e que não fazia jus a todo resto. Lógico que cada opinião é muito pessoal e não deveria ter me desanimado. Mas por um ponto isso foi ótimo, deixei o livro lá quietinho até ler a tua resenha e comentarios... bah guria, obrigada!! Tu falou com tanto carinho dele que comecei a enxergar de outra maneira. Também me identifiquei com a protagonista, lógico que não tenho o mesmo diagnóstico que ela, mas minha cabeça prega peças graças ao deficit de atenção que descobri ter, ou seja, me vi um pouco na historia dele e nas palavras que tu usou para descrever. agradeço novamente essa descoberta e bora ler o livro.

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    1. Então, Fabiana. Eu concordo que essa leitura não seja uma leitura muito fácil de ser feita. Mas, não sou a favor do pessoal que desmotiva outros a lerem, por não terem ou entendido a história ou criado empatia para dar sequência à leitura. Fico feliz que pude te dar esse ânimo a mais. E se não gostar, tenho certeza que a experiência será muito válida. E se gostar... ajude a propagar a palavra da Imp. hehehehe

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